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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Para especialistas, não há risco de apagão, mas alta na conta é inevitável

Linha de transmissão responsável por levar eletricidade até a casa das pessoas; energia elétrica, luz, força elétrica - Getty Images/iStockphoto
Linha de transmissão responsável por levar eletricidade até a casa das pessoas; energia elétrica, luz, força elétrica Imagem: Getty Images/iStockphoto
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

02/06/2021 04h00

Não vai ter jeito. O brasileiro pode começar a preparar o bolso para o aumento da conta de energia elétrica pelos próximos meses, como consequência da maior seca da história nos reservatórios das usinas hidrelétricas.

Professores e especialistas ouvidos pela coluna dizem que o aumento do custo da energia será inevitável para além do mês de junho.

"Vamos pagar mais caro, mas o custo maior é não ter energia", afirmou o professor do Instituto de Economia da UFRJ, Nivalde José de Castro.

Na última sexta-feira (28), a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) anunciou a aplicação do patamar 2 da bandeira tarifária vermelha para o mês de junho, ao custo de R$ 6,243 para cada 100 kWh (quilowatt-hora) consumidos.

A agência citou "condições hidrológicas desfavoráveis" em maio para ativar o patamar mais caro dos sistemas de bandeiras tarifárias: as termoelétricas.

A situação, porém, na opinião de especialistas, deve se prolongar, já que o período da seca no país está apenas começando.

Para o professor do programa de Pós-Graduação em Economia e vice-diretor da Faculdade de Economia da UFF, Luciano Losekann, o acionamento das termoelétricas para suprir a demanda de energia tem um custo elevado, que deve ter impacto em toda a cadeia.

"As contas vão repassar esse custo. Mas o que temos para hoje no cenário bom é esse aumento de tarifa inevitável", afirmou.

Problema estrutural

A economista e ex-diretora da Aneel (2005-2009) Joisa Dutra afirmou que há um problema estrutural no funcionamento do setor, que ainda não consegue oferecer de forma satisfatória uma "energia segura, limpa e confiável". Segundo Joisa, o governo precisar investir em mais fontes de energia, mas isso depende de uma decisão política.

Ela afirma que o Brasil tem muitos recursos para energia, como gás natural e fontes renováveis (solar e eólica), mas isso não foi priorizado. "O que hoje temos como opção são as termoelétricas", diz.

Segundo a ex-diretora da Aneel, a opção atual das termoelétricas acaba pesando no bolso do consumidor. "Esse custo elevado da energia é ruim. E todos têm que pagar."

Sem apagão

Pelo menos no momento, os especialistas ouvidos descartam o risco de apagão ou de um racionamento similar ao realizado no então governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, quando as pessoas foram obrigadas a cortar em 20% o consumo de energia.

Losekann, que também é pesquisador do Grupo de Energia e Regulação (Gener), da Universidade Federal Fluminense, diz não acreditar em apagão agora.

Ele afirma que o governo possui meios de evitar racionamento. Além de acionar as termoelétricas, o governo pode concluir obras em andamento e agilizar a situação de algumas outras térmicas em litígio, por exemplo. "Há margem de manobra", afirmou.

Ela afirma que o apagão e o racionamento de 2001 demonstraram que há um custo social elevado na falta de energia.

"Alguns consumidores têm mais facilidade para racionar. Desligam o ar-condicionado, trocam lâmpadas etc. Mas outros, principalmente os mais carentes, têm dificuldade", disse.

Para Nivalde de Castro, a situação e 2001 é muito distinta da atual. "Não tínhamos mais água nos reservatórios, mas não tínhamos a matriz tão diversificada como a gente tem hoje", disse.

O professor da UFRJ afirma que o acionamento das termoelétricas ainda é a opção número um do governo, mas que energias alternativas como eólica e solar tendem a crescer e reduzir os impactos de secas futuramente.

Reduzir o consumo

Além da oferta de energia, especialistas apontam que outro caminho para reduzir os efeitos da crise é incentivar uma redução do consumo.

"Se o nível de reservatórios ficar muito baixo, uma alternativa é pedir para as indústrias eletrointensivas (que usam muita energia elétrica, como as de alumínio e aço) reduzam a produção", afirma Castro.

Governo minimiza

Na segunda-feira (31), ao participar do Brazil Investment Forum, em São Paulo, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que a atual seca histórica enfrentada pelo Brasil não é um grande fator de preocupação para o governo.

"No que se refere à crise hidrológica, ela é decorrente das mudanças climáticas. Eu vejo esse momento com serenidade, nós estamos muito bem organizados", afirmou.