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Carla Araújo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Governo usa Deus, inverte a lógica e barra perguntas ao falar das suspeitas

Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Onyx Lorenzoni, em evento no Planalto - Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Onyx Lorenzoni, em evento no Planalto Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

23/06/2021 19h58Atualizada em 23/06/2021 20h45

A entrevista coletiva do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, no início da noite desta quarta-feira (23), chamou atenção pela irritação que o auxiliar do presidente Jair Bolsonaro demonstrou ao defender o chefe em relação às suspeitas de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin.

Além disso, há pelo menos outros três pontos que merecem atenção nesta entrevista.

O primeiro deles é a inversão da lógica que cerca qualquer denúncia de irregularidade. É esperado que as autoridades peçam apurações sobre o tema para de fato garantir que não houve — por parte de nenhum responsável — algum tipo de fraude.

Onyx, no entanto, mirou sua artilharia contra o deputado Luis Miranda (DEM-DF) e o irmão dele, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, ao anunciar que ambos serão alvos de investigação.

O segundo ponto, não menos alarmante, foi o uso de Deus para encorpar as ameaças de que os "delatores" serão punidos. "Deus tá vendo", disse o ministro, acrescentando em tom ameaçador que os irmãos Miranda não pagarão apenas "perante a Deus". "O senhor não vai se entender só com Deus, vai se entender com a gente também".

O estado é laico. Não tem ou não deveria ter religião. O presidente Bolsonaro não liga para isso. Usa o bordão "Deus acima de todos" desde a campanha e, com isso, autoriza que seus ministros também usem Deus para defender seu governo de suspeitas de corrupção.

Por fim, após uma apresentação com dados de diversas vacinas e uma narrativa extremamente confusa do assessor especial da Casa Civil e ex-auxiliar do general Eduardo Pazuello na Saúde, Élcio Franco, o que podemos classificar como "a cereja do bolo": "Não haverá perguntas", disse o funcionário do Palácio do Planalto que acompanhava a fala do ministro a jornalistas.

Na semana em que Bolsonaro mais uma vez agrediu verbalmente uma repórter - por não gostar de suas perguntas — após uma suspeita de tamanha gravidade, se o governo tivesse realmente a intenção de esclarecer o tema o mínimo seria permitir que a imprensa fizesse questionamentos.

Mas não, em busca de reforçar a sua narrativa, Onyx tenta apenas com sua indignação convencer os brasileiros de que não há nada de errado com as suspeitas em torno da compra do imunizante indiano.

O caso, no entanto, não deve ficar por isso mesmo. Além da CPI da Pandemia, o TCU (Tribunal de Contas da União) já avalia o assunto. Mais cedo, o ministro Bruno Dantas, disse que espera que as "questões nebulosas", que cercam o contrato para a compra da vacina indiana, devem ser esclarecidas pela corte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL