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Equador sob tensão máxima com ocupação indígena e novos distúrbios

09/10/2019 22h58

Quito, 10 Out 2019 (AFP) - Milhares de indígenas chegaram nesta quarta-feira à militarizada cidade de Quito para protestar contra os ajustes econômicos que o governo acordou com o FMI e que tornaram o combustível mais caro. O tumulto no Equador já dura há uma semana.

Manifestantes marcharam em direção ao centro da cidade, onde fica a sede presidencial desocupada, enquanto mais tarde grupos menos numerosos de estudantes e trabalhadores enfrentaram com pedras a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo.

"A indignação equatoriana contra esse pacote (do FMI) nos traz até aqui", disse Gonzalo Espín, líder do povo indígena de Cotopaxi (centro). "Enquanto não desistirem, ficaremos aqui", alertou.

O presidente "está governando apenas com as receitas do Fundo Monetário Internacional, das câmaras de negócios. E é isso que o povo equatoriano rejeita", disse o líder indígena Salvador Quishpe.

Moreno não quer reverter sua política e oferece, em troca, liberar mais recursos para os povos indígenas afetados pelo aumento generalizado de preços que, em teoria, origina a alta de combustíveis.

Em entrevista à TV estatal, Moreno revelou que foi "à cidade de Quito com a finalidade de estender minha mão e dizer que já temos os primeiros bons resultados em relação ao diálogo", indicando que viajou à capital.

Moreno transferiu a sede do governo na segunda-feira para Guayaquil, diante da iminente ocupação da cidade pelos indígenas.

"Estamos obtendo os melhores resultados do diálogo com os irmãos indígenas", disse o presidente, que agradeceu pelo protesto que transcorre "em paz". "Sem dúvida, vamos resolver isto muito em breve".

O presidente abriu caminho para o diálogo com a mediação da ONU e da Igreja Católica. Os povos indígenas, entretanto, exigem como condição que o governo desista de eliminar os subsídios que levaram ao aumento do preço do diesel e da gasolina em até 123%.

Em Guayaquil, a segunda cidade do país, uma grande manifestação em apoio ao governo e em defesa da democracia reuniu milhares de pessoas nesta quarta.

"A democracia não cairá nas ruas de Guayaquil!", clamou a prefeita da cidade, Cynthia Viteri, diante dos manifestantes reunidos na Avenida 9 de Outubro.

Castigado pelo alto endividamento e pela falta de liquidez de sua economia dolarizada, o Equador acordou em março um programa de empréstimos com o FMI que chega a 4,2 bilhões de dólares.

Somente na semana passada Moreno anunciou o lado mais difícil do ajuste, que também prevê reformas tributária e trabalhista, afetando os funcionários públicos.

Os povos indígenas representam 25% da população equatoriana de 17,3 milhões.

- Centenas de feridos e detidos -O destacamento militar e a medida de exceção foram insuficientes para conter a crise, a mais grave desde a queda do então presidente Lucio Gutierrez em 2005.

Na última terça-feira houve violentos confrontos. Um grupo de povos indígenas conseguiu ocupar o Legislativo antes de serem despejados pela polícia.

O governo restringiu o trânsito noturno perto das instalações estratégicas como ministérios, pontes e antenas de comunicação.

Na primeira semana de manifestações a Cruz Vermelha atendeu 122 feridos nas manifestações. O governo também aponta 700 detidos.

Os protestos atingiram a indústria do petróleo. Vários poços na Amazônia foram ocupados por manifestantes, o que gerou uma queda de 31% na produção equatoriana, estimada em 531.000 barris por dia.

- Moreno vs. Correa -Moreno culpa seu antecessor e ex-aliado Rafael Correa pela agitação social. Segundo o presidente, Correa tenta derrubá-lo em aliança com o governo venezuelano de Nicolás Maduro.

Na Bélgica, onde vive atualmente com sua esposa, Correa disse nesta quarta que será candidato se for necessário, depois de defender a antecipação das eleições, diante do que considera uma "grave comoção social".

Correa, que enfrenta uma ordem de prisão no Equador por um crime apontado pelo Ministério Público antes da eclosão dos protestos, negou que esteja incentivando o golpismo.

A verdade é que "temos um problema muito sério de desajuste econômico. O preço dos combustíveis é (um assunto) muito complexo, nenhum governo tocou nisso em 15 anos. Se o governo ceder, será forçado a se endividar muito mais", disse à AFP Simón Pachano, cientista político da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Os Estados Unidos, a Secretaria-Geral da OEA e sete países latino-americanos liderados por Brasil, Colômbia e Argentina demonstraram apoio a Moreno.

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