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Saiba qual pode ser maior problema de compra de títulos pelo BCE

Luke Kawa e Tracy Alloway

(Bloomberg) -- Obter informações antecipadas sobre as aquisições de dívida de governos por bancos centrais para lucrar se transformou em uma nova tradição em um mundo cheio de políticas monetárias não convencionais. O estrategista-chefe de mercados da Jefferies, David Zervos, descreve a prática como traders que tomam "um ativo rico e o convertem em super-rico".

Hans Lorenzen, estrategista de crédito do Citigroup para a Europa, cita a possibilidade de que as aquisições de títulos corporativos feitas pelo Banco Central Europeu possam provocar uma reversão dessa dinâmica perversa e fazer com que os investidores de fato se apressem a abandonar uma emissão de dívida em antecipação à venda do banco central.

Em março, o BCE anunciou que começaria a comprar papéis corporativos denominados em euros vendidos por empresas com grau de investimento, desencadeando um rali enorme da dívida da região e gerando muitas perguntas sobre os detalhes técnicos do programa.

Para isso, Lorenzen destacou um trecho chave do último comunicado oficial do BCE sobre a compra de títulos corporativos, publicado na quinta-feira. O trecho, que seria banal em um documento de divulgação de qualquer gerente de carteira, destacou-se por ter vindo das autoridades monetárias: "O Eurosistema irá realizar procedimentos adequados de risco creditício e due diligence sobre o universo adquirível de forma constante".

Isto sugere a Lorenzen que o BCE poderia "ser vendedor" se perceber que o crédito de certa empresa está se deteriorando. "'De forma constante' sugere que o BCE poderia tentar reduzir a exposição de forma ativa, presumivelmente em um cenário onde um emissor estiver prestes a se retirar da lista de elegíveis", disse ele em uma nota a seus clientes.

'Profecia autorrealizável'

Embora se presuma que o BCE não seria excessivamente sensível à ampliação de spreads nas emissões que compra, possíveis rebaixamentos feitos pelas agências de risco que tirariam certa dívida corporativa de seu universo adquirível poderiam "criar uma profecia autorrealizável", escreveu o estrategista.

"Se o mercado perceber que o BCE será provavelmente um vendedor quase forçado em um caso particular, então haverá um forte incentivo para sair antes do BCE, ampliando muito os spreads. Isso, por sua vez, irá enfraquecer o acesso do emissor ao mercado e, portanto, aumentará a chance do rebaixamento da nota de crédito em primeiro lugar", explicou Lorenzen.

Como o BCE pode possuir 70 por cento de qualquer emissão de títulos corporativos, qualquer sinal de deterioração do perfil de crédito de uma empresa determinada poderia provocar fortes deslocamentos no mercado para sua dívida.

"Nós projetamos que o BCE evitará aquisições de empresas muito negativas ou que apresentam um risco crescente de serem rebaixadas para um patamar fora do status de crédito elegível, mas não prevemos uma situação onde o BCE diretamente venda suas participações nesses papéis, porque isso seria incompatível com o tratamento dado pelo banco aos títulos de governos periféricos obtidos por meio do Programa de Mercados de Títulos", disse Owen Callan, analista de renda fixa da Cantor Fitzgerald.

Alguns profissionais de finanças apontaram para a ironia de o BCE depender tanto das notas de crédito depois de ter expressado interesse em reduzir o "excesso de dependência" do sistema financeiro "das notas de crédito externas" após a crise de 2008.

"A parte mais contundente, porém, foi que a instituição efetivamente terceirizará o trabalho com as notas de crédito - ou seja, dará o trabalho às agências de risco", escreveu Suki Mann, fundador do CreditMarketDaily.com, sobre o programa do BCE. "As mesmas agências de classificação de risco que foram bombardeadas por não terem sido imparciais nas crises do subprime e do Lehman. Agora o maior banco de todos eles colocou em perigo seu próprio balanço da forma mais incrível, indo para a cama com o diabo, por assim dizer!".

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