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Análise: Inflação nos EUA está baixa demais? Depende

Conor Sen

(Bloomberg) -- Aqueles que argumentam que o Federal Reserve dos EUA deveria manter os juros baixos geralmente se baseiam no mesmo elemento: o indicador de inflação preferido do banco central continua abaixo da meta de 2%, o que sugere que a economia ainda precisa de estímulo.

O que eles ignoram é que durante o boom das pontocom e o boom imobiliário da década de 1990 e 2000, esta lógica teria provocado bolhas maiores -- com estouros piores.

O argumento contra ou a favor de mais estímulo depende muito de como se mede a inflação. O Fed tende a se concentrar no índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês) do Departamento do Comércio -- e especificamente na versão "básica", que exclui os preços voláteis de alimentos e energia.

O índice PCE difere do Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) do Departamento do Trabalho, mais conhecido, em diversos pontos importantes. Por exemplo, ele é ajustado com mais frequência de acordo com os padrões de gastos das pessoas -- então se o peru ficar caro e as pessoas comprarem mais frango, ele pode detectar isso.

Ele também cobre o custo total de serviços como assistência médica, inclusive a parte paga por um empregador ou uma empresa de seguro. O CPI, em contraste, cobre apenas os gastos que saem do bolso das pessoas.

As diferenças significam que o CPI dá mais peso a áreas como habitação e transporte e que o PCE enfatiza mais a assistência médica. Os custos de moradia vêm aumentando a um ritmo veloz e os custos de assistência médica vêm desacelerando, então o CPI básico mostrou uma inflação mais alta que o PCE básico.

Até junho, o primeiro estava 2,3% mais alto que no ano anterior. O segundo estava apenas 1,6 por cento mais alto.

Qual número é mais importante para o Fed? Isso é discutível. As autoridades do Fed, por exemplo, se preocupam muito com o que acontecerá com as expectativas de inflação das pessoas.

Para esta finalidade, um índice que inclui muitos gastos que a população não vê pode não ser o ideal. Se as empresas de seguros e os médicos negociarem mudanças de preços sobre as quais as pessoas nada sabem, como isso modificaria a percepção da inflação?

Ainda mais importante, o PCE básico ficou abaixo da meta de 2% do Fed durante grande parte dos últimos 20 anos, inclusive em épocas em que -- em retrospectiva -- é muito claro que o aumento dos juros era a coisa certa a fazer.

Quando a bolha das pontocom aumentava em dezembro de 1999, o PCE básico estava apenas 1,2% mais alto que no ano anterior. E, no terceiro trimestre de 2005, quando as hipotecas subprime e os derivativos de crédito estavam no auge, o PCE básico era de 1,9%.

O estouro da bolha do subprime foi particularmente desastroso, obrigou o Fed e o Congresso a tomar medidas extraordinárias para manter o sistema financeiro à tona e conter os danos econômicos.

Só se pode imaginar o quanto esse episódio teria sido pior -- e se o Congresso teria encontrado a disposição política para financiar resgates ainda maiores -- se o Fed tivesse estimulado mais o boom com uma política monetária ainda mais flexível. Devemos agradecer que a bolha não ficou maior do que já era.

É claro que o Fed precisa se concentrar na inflação para tomar suas decisões de política monetária. Mas as autoridades deveriam ter em mente que o PCE básico não é a única medida e deveriam levar em conta outros indicadores, como o emprego e o comportamento dos mercados de ativos. Se fizerem isso, a defesa da retirada de estímulos em breve parecerá muito mais forte.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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