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Acionistas da gigante de alimentos BRF colocam Abilio em xeque; o que deu errado?

Ana Paula Paiva/Valor
Imagem: Ana Paula Paiva/Valor

Gerson Freitas Jr. e Tatiana Freitas

02/03/2018 15h36Atualizada em 02/03/2018 17h39

(Bloomberg) -- Quando completou seus primeiros quatro meses na presidência do conselho da BRF, em agosto de 2013, Abilio Diniz se reuniu com investidores e jornalistas em São Paulo para detalhar a sua estratégia e compartilhar a sua visão otimista para o futuro da maior empresa de alimentos do Brasil.

A proposta era transformar a indústria de aves e suínos em uma empresa mais voltada ao consumidor final, capaz de adicionar mais valor às commodities que produzia e de ser, mais do que uma grande exportadora, uma companhia global. A BRF era e sempre tinha sido um bom negócio, mas podia ser muito melhor --mais enxuta, eficiente e rentável-- disse o bilionário à época.

Os investidores compraram a ideia, e as ações subiram 15%, para um recorde, nas semanas seguintes.

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Não rolou

Quase cinco anos depois, a BRF está longe de estar muito melhor. A companhia acaba de registrar o maior prejuízo anual de sua história, o segundo consecutivo, e as ações caíram para o menor nível desde 2012.

A dívida aumentou, e sua nota de crédito está prestes a ser rebaixada para nível especulativo pela agência de classificação de risco Standard & Poor's.

Como resultado, investidores liderados pelos fundos de previdência Previ e Petros solicitaram uma reunião de acionistas para substituir Abilio e todo o conselho. A data da reunião ainda não foi marcada.

Novo conselho, sem Abilio

O destino do executivo provavelmente começará a ser discutido em uma reunião do conselho na segunda-feira, mas os principais acionistas já estão analisando possíveis substitutos. Abilio possui menos de 4% da BRF e perdeu apoio entre os maiores investidores, incluindo a Aberdeen Asset Management.

Até mesmo a aliada de longa data Tarpon Investimentos, o terceiro maior acionista da BRF, está participando de negociações para formar um novo conselho que não inclui Abilio, disse uma pessoa com conhecimento direto do assunto, que pediu anonimato porque a informação é confidencial.

Abilio não respondeu a pedidos de comentário para a reportagem.

O que deu errado?

A derrocada da BRF tem afugentado os investidores e alimenta a pergunta: o que deu errado com o plano de Abilio para a empresa?

Diniz simplesmente colocou um monte de yuppies das finanças para dirigir a empresa.

João Lian, vice-presidente da Associação dos Investidores Minoritários (Aidmin) e acionista da BRF

Abilio costuma dizer que uma das chaves para o sucesso de uma empresa é "colocar as pessoas certas nos locais certos". Ele teve problemas para fazer isso.

Quatro presidentes desde 2013

A BRF teve quatro diferentes presidentes desde 2013, e toda a sua diretoria foi substituída pelo menos duas vezes. Muitos dos executivos contratados tinham menos conhecimento do negócio comparados aos que deixaram a companhia.

Poucos meses depois de assumir a BRF, Abilio nomeou como presidente o consultor Claudio Galeazzi, considerado um especialista em reestruturação de empresas, em substituição a Antonio Fay, com duas décadas de experiência na indústria de alimentos.

Em 2015, Galeazzi foi substituído por Pedro Faria, executivo do mercado financeiro e fundador da Tarpon Investimentos. Após uma sequência de resultados negativos, Faria deixou o cargo e deu lugar a José Drummond Jr., que assumiu em dezembro.

Corte de empregos, mudança de fornecedores

Os gestores originalmente nomeados por Abilio cortaram milhares de empregos e reduziram a força de vendas da BRF de forma significativa, prejudicando a capacidade da empresa de chegar aos consumidores, segundo um relatório do HSBC.

A BRF reduziu a compra de frango e suínos de produtores integrados, que são baseados em compromissos de longo prazo, o que a tornou mais vulnerável à volatilidade das commodities.

A remuneração de altos executivos dobrou desde então.

O principal erro foi a execução.

Peter Taylor, gestor de investimentos na Aberdeen Asset Management PLC

O Aberdeen é a quarto maior acionista da BRF e apoia a saída do presidente do conselho.

Recessão no Brasil, ascensão da JBS

Fatores externos, fora do controle de Abilio, também tiveram o seu papel na crise da BRF, como a pior recessão em um século no Brasil, uma forte alta nos preços do milho após a seca reduzir a produção nacional em 2016, e o escândalo da Carne Fraca.

Além disso, a JBS, o frigorífico controlado por Joesley e Wesley Batista, se tornou um rival de peso para a companhia após comprar a Seara, em 2013.

Como resultado, a participação da BRF no mercado doméstico de pratos prontos --a principal aposta de Abilio-- caiu quase cinco pontos percentuais em 2016, com as margens de lucro no segmento caindo também.

A empresa tem recuperado "market share" depois de a JBS ter se envolvido em escândalos de corrupção, mas ela ainda está abaixo dos níveis anteriores.

Os problemas na BRF também podem ter origem na falta de consenso entre os maiores acionistas sobre a estratégia da empresa, segundo Gilberto Braga, especialista em governança corporativa e professor nas escolas de negócios Dom Cabral e Ibmec.

Embora a BRF não tenha um controlador, seus maiores acionistas normalmente formam alianças para impor a sua visão, atuando como um controlador, disse Braga. O problema é que, muitas vezes, eles costumam mudar as suas estratégias com certa frequência, o que acaba também prejudicando a atuação dos executivos.

Os acionistas da BRF aparentemente não falam a mesma língua.

Gilberto Braga, especialista em governança corporativa

(Com a colaboração de Fabiola Moura)

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