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Aposta da Amazon, loja sem dinheiro vivo pode prejudicar pobres

Olga Kharif e Krista Gmelich

26/03/2019 12h03

(Bloomberg) -- Rebecca Esparza trabalha com pessoas desabrigadas e, tendo morado em um abrigo, ela sabe o que significa transitar pela economia dos EUA sem ter muito dinheiro. Para a maioria das pessoas que ela atende, o dinheiro vivo impera porque elas não têm acesso a ferramentas financeiras que são comuns para muitos americanos - contas-correntes, cartões de débito, aplicativos de pagamento.

Esparza teme que o crescente número de lojas e restaurantes que não aceitam dinheiro em espécie em todo o país marginalize ainda mais as pessoas de baixa renda em um momento em que a desigualdade já é a mais alta em mais de meio século.

"Simplesmente esquecemos o quanto os pobres podem chegar a ser pobres neste país", diz Esparza, que trabalha na filial de Lawrence, Kansas, da instituição sem fins lucrativos Family Promise e que chegou a vender sangue para sustentar a si mesma e seus cinco filhos. "Hoje eu poderia fazer parte desse sistema que não usa dinheiro vivo, mas seria totalmente discriminatório."

Legisladores de todo o país concordam com Esparza e estão tomando medidas para deter ou desacelerar a marcha firme rumo a uma sociedade sem dinheiro em espécie. No início deste mês, Nova Jersey aprovou uma lei que proíbe muitos tipos de lojas que não usam dinheiro vivo, assim como Massachusetts, que tem uma lei de 1978 que proíbe a discriminação contra clientes que optam por usar dinheiro, e Filadélfia, que adotou uma lei semelhante em fevereiro. São Francisco propôs proibir lojas como Amazon Go e cafeterias Blue Bottle, da Nestlé, que não aceitam dinheiro em espécie. Ritchie Torres, do Conselho da Cidade de Nova York, encabeça iniciativas para proibir o varejo sem dinheiro vivo lá, e legisladores de Chicago e Washington estudaram propostas semelhantes nos últimos anos.

Os proponentes das lojas que não aceitam dinheiro enumeram vários benefícios. Os pagamentos eletrônicos poupam aos funcionários o tempo necessário para coletar, armazenar e transportar dinheiro. A probabilidade de roubo é menor. Os clientes avançam mais rapidamente nas filas do caixa, porque não precisam contar dinheiro nem esperar o troco.

Alguns argumentam que a tecnologia, que ajudou a introduzir os pagamentos sem dinheiro vivo, pode fornecer uma solução. Empresas como Square e PayPal Holdings oferecem serviços de pagamento que não exigem uma conta bancária; estão conquistando adeptos entre os trabalhadores pobres e poderiam acabar sendo uma alternativa à proibição de lojas que não aceitam dinheiro.

A grande maioria dos varejistas e restaurantes dos EUA atualmente aceita dinheiro. E aqueles que não aceitam costumam atender a clientes mais ricos. O exemplo mais conhecido é a Amazon Go, uma rede de lojas de conveniência sem caixa que vende produtos de luxo, como queijos artesanais e chocolates produzidos localmente. A Amazon opera apenas 10 lojas Go em três cidades, mas poderia chegar a abrir 3.000, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

O medo é que, se essa moda de comprar sem dinheiro pegar, mais e mais varejistas seguirão o exemplo. Muitos restaurantes locais não estão mais aceitando dinheiro vivo, que pode adicionar até 10 por cento aos custos indiretos, diz Richard Crone, CEO da especialista em pagamentos Crone Consulting. Daqui a cinco anos, diz ele, um terço de todo o varejo não usará dinheiro em espécie, contra 17 por cento atualmente. Cerca de 10 por cento das lojas físicas não aceitarão dinheiro vivo, contra menos de 1 por cento hoje, diz ele.

"Uma gigante de trilhões de dólares como a Amazon tem a capacidade de se espalhar amplamente por todo o país", diz Torres, do Conselho da Cidade de Nova York. "Então, uma tendência que começa na margem poderia se proliferar da noite para o dia."