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Rei emérito da Espanha não se queixa e já pensa em seu enterro, segundo livro

06/10/2021 17h00

Rafael Cañas.

Paris, 6 out (EFE).- O rei emérito da Espanha Juan Carlos I passa o tempo em Abu Dhabi analisando a atualidade espanhola, sem se queixar da própria situação, com uma aparência melhorada, mas diz que já pensa em seu enterro, de acordo com um livro sobre sua vida lançado na França nesta quarta-feira.

Escrito por Laurence Debray, filha do famoso filósofo e escritor Regis Debray, o livro "Mi rey destronado" ("Meu rei destronado", em tradução livre") começou a ganhar forma em 2014, mas tomou um rumo radical em 2020, com a saída de Juan Carlos da Espanha, em meio aos escândalos crescentes sobre os seus negócios financeiros.

Após algumas conversas com Juan Carlos desde 2014, Debray disse que falou por telefone com o monarca emérito em 2020 e trocou mensagens durante o confinamento, antes de visitá-lo em Abu Dhabi na primavera (do hemisfério Norte) passada.

O livro não é obra de alguém neutro, pois a própria Debray reconhece repetidamente a sua admiração pelo rei emérito e considera fundamental o seu papel na transição democrática e no fracasso da tentativa de golpe de Estado militar em 1981.

Em nenhum momento parece que a autora o questiona profundamente sobre as razões que o levaram a deixar o país. Por outro lado, embora ela recorde "suas contas na Suíça", afirma que o rei emérito "não cometeu um crime, um homicídio, um roubo, um estupro".

Neste sentido, Debray narra que o rei emérito "aceitou um presente que era difícil de recusar do rei da Arábia Saudita" (uma doação de 65 milhões de euros), além de viagens de avião e um cartão de crédito de parentes ou amigos generosos.

O rei emérito deixou a Espanha em agosto de 2020 para se instalar nos EUA, diante de investigações por parte dos procuradores na Suíça e em Espanha sobre as suas atividades financeiras.

O Ministério Público espanhol abriu três investigações sobre o rei emérito, assim como a Agência Tributária, depois de Juan Carlos ter pago quase 4,4 milhões de euros em fevereiro para quitar uma dívida para com as autoridades fiscais espanholas.

Nas 268 páginas do livro, Debray não esconde a admiração pelo protagonista da obra, que deriva do seu papel na transição e do seu interesse pela América Latina devido às suas origens familiares: a mãe da autora é a antropóloga venezuelana Elizabeth Burgos e o pai era amigo de Fidel Castro e François Mitterrand, e foi preso junto com Che Guevara.

O MEU REI.

E essa admiração permanece, apesar dos "seus erros, dos seus negócios, das suas amantes e da sua velhice". Por esta razão, a autora se refere a Juan Carlos I em diversas ocasiões como "meu herói", "meu rei" ou "meu rei destronado".

Entretanto, ela expressa decepção pela forma como o rei emérito aceita a sua saída do país sem ser mais combativo contra aqueles que o atacam na Espanha.

Segundo Debray, no encontro entre ambos em Abu Dhabi, ele parecia "um turista americano", vestido com uma camisa polo branca, casaco claro, calças de lona e tênis preto. O rosto estava menos inchado do que antes por causa dos remédios e tinha boa aparência. "Perdi 12 quilos", disse Juan Carlos I.

O rei emérito passa muito tempo acompanhando as notícias na Espanha e mantendo contato com os poucos amigos que permanecem leais, mas fala "com uma certa modéstia" dos que o deixaram, incluindo alguns "que devem a fama e a fortuna a ele".

"A amargura nunca transparece das suas palavras. Ele não reclama de nada. Constata, resignado", narra a autora.

Ao perguntar o motivo pelo qual o rei emérito deixou a Espanha, ele justificou: "Aqui não incomodo a Coroa", ao lembrar que em solo espanhol "sofria muitas pressões".

"Meu rei termina assim a sua carreira de 'libertador' como evasor fiscal", escreve Debray, que acrescenta que "a nossa sociedade fofoqueira e acusadora julga mais rápido do que a justiça, sem nuances e ponderação".

Debray sublinha que Juan Carlos I "é um rei destronado, mas sobretudo um pai repudiado" em uma Casa Real na qual o atual rei, Felipe VI, busca ser "virtuoso e meticuloso para apagar o laxismo e a permissividade do pai".

O livro termina com um breve diálogo entre Debray e o rei emérito, logo após o funeral do príncipe Philip, em abril, o que deixou o protagonista "muito emocionado".

"Foi soberbo, muito comovente e elegante", comentou o monarca.

"Também se enterra bem na Espanha", respondeu a autora.

"O enterro do meu pai foi muito bonito. Agora, tenho de pensar no meu", concluiu Juan Carlos I. EFE

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