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Avaliação sobre atividade na ata surpreende e eleva tom hawkish, dizem analistas

Thaís Barcellos, Francisco Carlos de Assis e Maria Regina Silva

São Paulo

23/03/2021 15h29

A avaliação mais otimista do Banco Central (BC) sobre a atividade econômica na ata do Comitê de Política Monetária, incluindo a percepção de redução mais rápida da ociosidade, surpreendeu o mercado e fortaleceu, na visão de economistas consultados, o tom mais hawkish (mais duro) em relação ao ciclo de alta de juros.

Para alguns, diante do caos atual no sistema de saúde e o aumento de medidas restritivas, o BC, na próxima reunião, em maio, pode ter de moderar o tom, embora o comitê já tenha ponderado que há incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia no primeiro semestre em meio ao aumento de casos recente.

Outros querem entender mais a visão da autoridade monetária sobre a retomada no segundo semestre, considerando que há bastante incerteza sobre o processo de vacinação e seus efeitos. Há expectativa que o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) traga mais detalhes e ajude a calibrar as apostas para a política monetária.

Além de destacar que a recuperação consistente da economia continuou no quarto trimestre de 2020 e pode ter se estendido até fevereiro, apesar de ponderações sobre efeitos de ajustes sazonais, o BC avaliou na ata que o efeito de um agravamento da pandemia sobre a atividade deve ser menor do que no ano passado e ser seguida por retomada mais rápida, com o avanço da vacinação.

A autoridade monetária ainda argumentou que os dados do mercado de trabalho formal e de atividade, principalmente no setor de bens, sugerem que a redução da ociosidade foi mais célere. Também houve análise de que a demora de normalização de cadeias produtivas, que tem pressionado a inflação, pode indicar que há também choque de demanda.

"No geral, a ata mostrou um tom mais hawkish do que anteriormente esperado e declarado em documentos anteriores. Ficamos surpresos com a discussão sobre inflação e atividade econômica, com o Banco Central vendo inflação por demanda, e capacidade ociosa em declínio mais rápido do que o esperado", destacam a economista-chefe do Credito Suisse no Brasil, Solange Srour, e o economista Lucas Vilela.

O ex-diretor do Banco Central e fundador da Schwartsman & Associados foi além, dizendo que o tom do BC foi mais hawkish do que seria sábio neste momento. "A retórica hawkish do BC pode voltar a assombrá-lo já em maio, caso a economia perca fôlego significativo no fim do primeiro trimestre e início do segundo, como parece ser o caso à luz das notícias recentes sobre a crise sanitária", diz, em relatório.

Para o ex-diretor do BC, contudo, isso não deve impedir que o BC eleve a taxa Selic justamente para evitar que a inflação de 2021 contamine as expectativas de 2022. Ele projeta que os juros básicos terminem o ano entre 5,25% e 5,50%, mas com risco de baixa em virtude da possibilidade do BC ter de reavaliar a trajetória da atividade econômica.

Schwartsman cita que o nível de produção do setor de serviços está 3% abaixo do pré-pandemia e que a ocupação no mercado de trabalho está 8% aquém de fevereiro, contrapondo a menção sobre o mercado de bens e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) usado pelo BC. "Existem razões metodológicas para acreditar que o Caged atualmente exagera a recuperação dos mercados de trabalho."

Ele ainda lembra que a mediana do Boletim Focus para o PIB de 2021 é de 3,22%, abaixo do carrego estatístico deixado por 2020, de 3,60%. "Assim, a menos que o BCB tenha fortes motivos para se desviar do 'consenso', pode ficar profundamente decepcionado com a atividade econômica."

Para a economista-chefe da Pastore & Associados, Paula Magalhães, o BC pode ter de moderar o tom hawkish em maio, a depender do efeito da piora da pandemia na atividade.

"Achei a ata positiva com a atividade, e isso faz sentido dado que acharam que o grau de estímulo estava excessivo. Aparentemente, vemos uma probabilidade maior de recessão técnica do que o BC. O fechamento de hiato mais rápido do que o esperado parece ser ligado ao Caged. Eu acho que estamos um pouco no escuro com os dados de mercado de trabalho", acrescenta Magalhães, citando discrepâncias entre o Caged e a Pnad, que tiveram mudanças de metodologia em 2020.

Segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, a inflação de bens sugere que o que está acontecendo é um ajuste dos estoques, "algo que não parece ser permanente". "Talvez na próxima reunião, não na de maio, mas na seguinte, fique claro que não tem demanda. Daí, pode ser que parem de subir o juro e ser provável que tenham de reduzi-lo. Esse seria o cenário alternativo", avalia. No entanto, o cenário que Copom "vendeu" para o mercado é de alta da Selic para a faixa entre 5,00% e 5,50% ao ano.

O economista João Fernandes, sócio da Quantitas Asset, concorda que a avaliação do BC foi "menos cautelosa com a recuperação da atividade do que esperava", citando que essa foi a parte mais hawkish da ata, mas diz que essa análise é consistente com o cenário de juros de 6,5% no fim do ciclo, em janeiro de 2022.

A visão do Banco Central em relação à atividade econômica também chamou a atenção do estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. "É um BC bastante otimista com a atividade apesar de dados antecedentes sugerindo desaceleração da economia no fim do primeiro trimestre", diz, lembrando que a queda no índice de confiança do consumidor da FGV relativo a março assim como dados de confiança da indústria têm apontado para perda de fôlego do setor. "E foi o que se recuperou mais rapidamente", lembra. "Enfim, o varejo também indica enfraquecimento do consumo", completa.

Ainda que as esperanças de retomada sustentável estejam calcadas no avanço da vacinação, o economista faz ponderações ao comparar a situação do Brasil com a do Chile. Apesar de o país vizinho ser o líder da América do Sul no adiantamento à imunização, voltou a ordenar confinamento em meio a um pico de novos casos de covid-19. "A vacinação parece que surte efeito mais significativo quando atinge uma parcela também significativa da população. O Chile tem conseguido algo notável nessa questão e mesmo assim tem segunda onda. Ajustando pelo tamanho da população, é algo similar ao surto no Brasil. Isso sugere que será preciso avançar muito até que tenhamos um controle maior da doença e para permitir crescimento sustentável.", diz.