Dólar sobe pelo 3º pregão seguido de olho nas apostas para juros nos EUA

O dólar à vista emendou nesta quarta-feira, 17, a terceira sessão seguida de alta no mercado doméstico de câmbio, acompanhando a onda de fortalecimento da moda americana no exterior e o avanço das taxas dos Treasuries. Dados fortes do varejo nos EUA divulgados pela manhã reforçaram a percepção de que há menos espaço para início de corte de juros pelo Federal Reserve ainda em março.

Ao rearranjo das apostas em torno da política monetária nos EUA somam-se temores de aumento das tensões geopolíticas e a preocupação com o fôlego da economia chinesa. Embora o crescimento da China em 2023, de 5,2%, tenha superado a meta oficial estabelecida pelo governo (5%), houve sinais de deterioração da atividade no quarto trimestre - o que se reflete nos preços das commodities, como minério de ferro.

Pela manhã, o dólar chegou a ultrapassar o teto de R$ 4,95 e registrou máxima a R$ 4,9547. A febre compradora já havia amainado no início da tarde, levando o dólar até a operar, de forma bem restrita e pontual, em terreno negativo, com mínima a R$ 4,9237. No fim da sessão, o dólar avançava 0,09%, cotado a R$ 4,9301 - maior valor de fechamento desde 15 de dezembro. A divisa já acumula valorização de 1,49% na semana.

A desaceleração da alta da moeda ao longo da tarde foi atribuída por operadores a ajustes técnicos e a movimentos de realização de lucros, dado que o dólar já havia subido 1,22% ontem e ultrapassado pela manhã os R$ 4,95 - nível técnico que costuma atrair vendedores.

"Quando o dólar chega próximo de 4,95 e R$ 4,96, há uma força vendedora bastante grande, com desmonte de posições e realização de lucros. Vejo a taxa de câmbio trabalhando em intervalo entre R$ 4,80 e R$ 5,00", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, para quem, além das perspectivas para os juros nos EUA, o aumento das tensões geopolítica também contribui pela busca global à moeda americana. Ele cita os ataques recentes de rebeles Houthis, do Iêmen, a embarcações americanas na região do Mar Vermelho, e a reação negativa de autoridades chinesas a cumprimentos de países como os EUA ao novo presidente de Taiwan. "Aqui, no Brasil, ainda temos esse atrito entre o Congresso e o Governo na questão das desonerações, o que também prejudica o apetite pelo real."

Referência do comportamento do dólar em relação a seis divisa fortes, o índice DXY operava em leve alta quando o mercado local fechou, aos 103,454 pontos, após 103,692 pontos na máxima. O dólar subia em bloco na comparação com divisas emergentes e de países produtores de commodities mais relevantes, à exceção do peso chileno.

O economista-chefe do Banco Fibra, Marco Maciel, vê uma contenção do otimismo excessivo do mercado em relação ao início do afrouxamento monetário nos Estados Unidos como principal responsável pela alta recente do dólar para o nível de R$ 4,90. Segundo Maciel, pelo menos 70% da valorização do real entre dezembro de 2023 e o início deste ano está relacionada a queda dos juros futuros americanos, refletindo apostas crescentes de corte de juros pelo Fed em março deste ano.

Ele observa que o discurso ontem do diretor do BC americano Christopher Waller, que tem direito a voto nas reuniões de comitê de política monetária, alertando para o nível elevado do núcleo da inflação ao consumidor e dos preços de serviços levaram a uma alta dos Treasuries, em especial a da taxa de 2 anos. "Essa foi a tônica do recado de Waller, que levou o juro de 2 anos de quase 4,10% há uma semana para 4,33% atualmente, desvalorizando o real", diz Maciel, que estima valor justo para a taxa de câmbio no curto prazo em R$ 4,95, dado o fluxo cambial negativo neste início de ano.

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