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Atrito com PSDB é só fumaça? O que o mercado espera? As dúvidas sobre o governo Temer após o impeachment

SÃO PAULO - Depois do impeachment de Dilma Rousseff ser concluído, o mercado agora se volta totalmente para os desafios do agora efetivo governo Michel Temer. Além disso, ainda há dúvidas sobre o futuro de Dilma, uma vez que ela manteve os direitos políticos. Mas afinal, o que muda para Temer e para Dilma após esse dia 31 de agosto de 2016?

"Após o impeachment, o mercado volta o seu foco diretamente para a disposição e a capacidade de administração de Temer para acelerar e aprofundar o ajuste fiscal, além de como ele construirá o necessário apoio do Congresso para as reformas para tornar a economia mais flexível e produtiva", afirma o economista sênior do Goldman Sachs, Alberto Ramos. As hesitações e/ou a falta de entrega de passos concretos no sentido da consolidação fiscal podem desencadear dinâmicas de mercado adversas.

Para Ramos, a aprovação do impeachment e a transição política já estava precificada pelo mercado. Ele ressalta que, dado o péssimo desempenho econômico dos últimos anos e o cenário político instável, sustentada pela expectativa de uma mudança na política macroeconômica, além de um equilíbrio político mais estável e cooperativo. Parte do desempenho positivo dos mercados financeiros nos últimos meses foi reconhecidamente impulsionado pelas expectativas de que uma nova administração poderia: i) ser mais inclinada a abraçar medidas de curto prazo e reformas estruturais de longo prazo necessárias para reequilibrar a economia e conter a rápida deterioração fiscal e ii) conseguir a cooperação do Congresso para conseguir o consenso político necessário para avançar as reformas estruturais. 

No geral, avalia Ramos, o fim da saga do impeachment pode incentivar a administração Temer a acelerar as medidas de ajuste, "mas nós consideramos que o grau de apoio da base aliada no Congresso para as medidas politicamente sensíveis e impopulares está pouco clara, apesar do forte apoio ao impeachment. Na verdade, nós não ficaríamos surpresos em ver o conteúdo e a espinha dorsal de algumas das medidas de ajuste fiscal e reformas enfraquecidas e diluídas no Congresso".

Primeira grande crise?
Aliás, Temer mal começou a ser governo e já enfrentou a sua primeira crise como efetivo: a divergência entre PMDB e PSDB após a manutenção dos direitos políticos da agora ex-presidente Dilma Rousseff. O PSDB e outros partidos, como DEM, mostraram insatisfação com relação à segunda votação, destacando a ambiguidade do governo e cobrando uma posição mais dura de Temer. O conflito culminou, inclusive, com a primeira baixa do governo, o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), anunciou posição de independência com relação ao governo. 

Porém, os analistas políticos não acreditam em uma grande crise no governo por conta disso.  De acordo com Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria, a decisão  do Congresso de preservar direitos políticos de Dilma não afeta comportamento da base legislativa de Temer, mas pode afetar a construção das bases políticas para 2018 e o debate junto à opinião pública.

"Essa separação tem peso relevante no debate político, dá força à ideia de que houve um casuísmo contra Dilma" e a "narrativa do impeachment perde força". Cortez ressaltou à Bloomberg que, "se houve crime de responsabilidade, a consequência natural seria a de Dilma se tornar inelegível". Para o analista, "existe uma tensão entre PMDB e PSDB que precisa ser equalizada e se transformar em coalizão de governo". Já para o PSDB, é interessante deixar o custo das medidas mais complexas nas mãos do PMDB por causa das eleições; mas "é importante considerar que o PSDB teve participação relevante no impeachment".

Para a Eurasia, há mais  fumaça que fogo no desentendimento entre o PMDB e o PSDB.  De acordo com a consultoria de risco político, a ameaça de deixar a coalizão não é muito confiável, enquanto o PSDB tem suas razões para pressionar o PMDB a dividir fardo de medidas impopulares. "No final das contas, o PSDB estaria trocando posição coadjuvante no governo para papel coadjuvante na oposição", afirma. Mas ressalta: a  administração da coalizão do governo de Michel Temer estará propensa a atritos nos próximos meses.

Já para o PMDB, o partido de Temer  sabe da importância do PSDB e do DEM para garantir a aprovação das medidas econômicas no Congresso, ressalta o analista político da Barral M. Jorge, Juliano Griebeler. "Portanto, Temer não deve deixar o atrito ganhar maiores proporções e deve ser rápido em dar um sinal aos partidos para apaziguar a discórdia", afirma. Vale ressaltar que, em sua primeira reunião ministerial pós-impeachment, Temer afirmou que será "inadmissível" qualquer tipo de divisão em sua base parlamentar e determinou que "se é governo, tem de ser governo". Ele admitiu que houve um "pequeno embaraço" na base do governo durante a votação do impeachment por conta disso. 

Ele disse que a manutenção dos direitos políticos de Dilma não foi uma derrota para seu governo, mas afirmou que senadores aliados "resolveram sem nenhuma consulta tomar uma posição". Conforme Temer, caso a decisão fosse combinada com o Palácio do Planalto, poderia haver até um "gesto de boa vontade" ao permitir pela continuidade dos direitos políticos de Dilma.  "Hoje nós tivemos um pequeno embaraço na base governamental, em face de uma divisão que lá se deu. Outra divisão que é inadmissível. Se é governo, tem que ser governo. Quando não concorda com uma posição do governo, vem para cá e converse conosco, para nós termos uma ação conjunta. O que não dá é para aliados nossos se manifestarem lá no plenário sem ter uma combinação conosco", cobrou.

Se para o Temer a manutenção dos direitos de Dilma gerou alguns atritos, o que muda para a própria ex-presidente? Para o Barclays, muito pouco. Para a Bloomberg, o economista Bruno Rovai destacou que "ela não tem um reduto eleitoral como Collor tinha/tem em Alagoas, que possa trazê-la de volta ao poder, ainda mais considerando a crise que o PT se encontra para os próximos anos". 

Enquanto isso, aponta a MCM Consultores, o presidente do Senado Renan Calheiros mostrou uma forte capacidade de articulação, uma vez que "está claro que ele foi um dos artífices dessa 'anistia política parcial'".

"Não muda nada, foi uma espécie de deferimento às ex-presidente Dilma por parte das pessoas que trabalharam com ela.  Acaba sendo um reconhecimento por parte dos ex-ministros de que Dilma, pessoalmente, não foi culpada de qualquer ilegalidade", afirma a consultoria, que destaca que o  processo de impeachment foi um pouco discutível. O próprio fato de que não houve a mesma clareza de avaliação como foi com Collor dá margem a essa dubiedade. E conclui: "o s problemas que Temer terá de enfrentar - fragmentação política, interesses corporativos e disputas dentro da coalizão - já existiam antes e vão continuar existindo".

(Com Bloomberg) 

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