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Especializado em política, Rubens Valente estreia coluna no UOL

Rubens Valente na terra indígena Piaraçu, em Mato Grosso - Arquivo pessoal - jan.2020
Rubens Valente na terra indígena Piaraçu, em Mato Grosso Imagem: Arquivo pessoal - jan.2020

Décio Galina

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/03/2020 04h00

Sem filhos, bichos de estimação ou plantas, Rubens Valente, 50, é o clássico "jornalista vidrado na profissão".

É repórter por natureza, desses de dedicação extrema e expressa em um sem-fim de prêmios importantes na categoria, além de dois livros —de temas espinhosos-,- resultados de reportagens de fôlego, típicos de quem mergulha de cabeça, sem considerar o risco de não voltar a emergir.

Paranaense de Goioerê (a 530 quilômetros ao noroeste de Curitiba), Rubens estreia agora estreia sua coluna no UOL.

Rubens é filho de Lício (morto em 1990), que tinha uma gráfica para talões de notas fiscais, cartões de visitas e impressos em geral. Yolanda, a mãe (de 90 anos, vivendo em Mato Grosso do Sul), é de ascendência portuguesa, nascida em Belém. Ela chegou a dar aulas, mas acabou engolida pela lida dos sete filhos. Moraram também em São Pedro do Ivaí e, em 1979, trocaram o Paraná por Mato Grosso do Sul.

"Minhas lembranças dessa época são imprecisas, mas fazia muito frio, isso não esqueço", conta Rubens. "Meu pai chegou a montar um pequeno jornal. As gráficas usavam tipos móveis ou linotipo, máquinas manuais de impressão folha a folha, componedores... Elas eram de fundo de quintal, eu ajudava na distribuição dos tipos, colocava letra por letra para formar frase. Devia ter 13, 14 anos..."

Montador e entregador de móveis

Agora você deve achar que, por causa da vivência no mundo gráfico e do pequeno jornal do pai, Rubens logo se enveredou para o jornalismo, certo? Errado.

Aconteceram algumas experiências antes —e não foram poucas. A partir dos 16 anos, ele foi entregador de material impresso usando uma bicicleta cargueira; lavador de peças em uma oficina mecânica de máquinas pesadas; office-boy; auxiliar de escritório; cobrador de uma firma de autopeças e, por dois meses, montador e entregador de móveis— "trabalho mais difícil que se possa imaginar, o corpo inteiro dói".

Quando o jornalismo abraçou Rubens, que se diga a verdade, não foi pelo encanto à profissão —a escolha pelo curso funcionou como um degrau para o que ele realmente sonhava. Adivinha? Cinema.

"Deixei a casa da minha família em Dourados (MS) em 1989 para fazer faculdade em Campo Grande. Estudei a vida inteira em escola pública, até a Universidade Federal do MS, onde me formei em 1995. No primeiro ano da faculdade já era repórter do extinto Diário da Serra. Meu sonho, na época, era fazer alguma coisa ligada ao cinema. Ficava louco com cinema desde criança."

Sem muitas alternativas no centro-oeste do Brasil, arriscou a habilitação em jornalismo. Ali estava a porta para ele chegar ao cinema. Mas, sabe como é a vida, ela muitas vezes não obedece a roteiros óbvios.

"Meu primeiro trabalho foi como repórter de economia. Logo passei para assuntos policiais; depois, fui editor de cotidiano. Mudei para Cuiabá, onde trabalhei no Diário de Cuiabá e na Folha do Estado."

Pronto. Cobrindo a vida como ela era, não haveria Hollywood que o fizesse mudar os planos. "Não quis mais saber do cinema como meio de vida e de futuro. Me apaixonei pelo jornalismo imediatamente. E lá se vão 30 anos."

Grupo Folha

Rubens começa a escrever sua história no grupo Folha da Manhã ao galgar uma vaga de repórter na Agência Folha, em 1996, como correspondente em Campo Grande. Antes de trabalhar na sede da Folha de S. Paulo, ele serviu o jornal O Globo por dois anos e meio.

Ingressa na Folha em 2001 como repórter de Painel, na editoria de Brasil (hoje, Poder). Tem sua primeira experiência de morar e trabalhar em Brasília em 2005 - volta a São Paulo no ano seguinte calejado pela intensa cobertura do Mensalão.

Estende a temporada paulistana até 2010, quando faz as malas de novo para Brasília, onde jogou âncora até hoje. Sai da Folha de S. Paulo dia 3 de março e agora tem como principal missão a coluna para o UOL, que terá uma ampla gama de assuntos —do acompanhamento do governo Bolsonaro a textos de temática militar, indígena e ambiental.

O apreço pela temática indígena remonta aos dez primeiros anos da carreira quando morou e trabalhou entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, estados com grande população indígena e fortes ações dos povos nativos pela retomada de suas terras tradicionais.

Tensões na zona rural, saques das áreas dos índios, depredações, garimpos ilegais, assassinatos de inocentes e líderes comunitários - assuntos de grande interesse jornalístico.

"A primeira reportagem que a Folha publicou de minha autoria, no dia do Natal de 1996, foi sobre uma invasão de oito mil garimpeiros na terra indígena Sararé, dos índios nambikwara", recorda. Para O Globo ressalta a reportagem sobre a viagem à terra Yanomami, em 2001.

A entrada no Painel, porém, desviou sua produção para frequentes investigações sobre corrupção no meio político. "Mesmo assim, continuei acompanhando o tema. Fiz algumas reportagens, como os primeiros documentos da ditadura militar sobre os indígenas, em 2008. Acumulei informações para um livro que pensava escrever."

Fuzis e flechas

Em 2017, Rubens lança Os Fuzis e as Flechas (Companhia das Letras), que desenterra centenas de mortes de indígenas durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985) após investigação que rendeu 80 entrevistas em dez estados, por onde percorreu 14 mil quilômetros de carro. "O relacionamento entre os indígenas e os não indígenas é uma das maiores histórias da aventura do povo brasileiro, desde 1500."

"[Mesmo depois da ditadura], a negação dos direitos indígenas vem na forma de decretos, decisões judiciais absurdas, interpretações jurídicas esquisitas. São imposições que ganham aparência de legalidade e passam a ser usadas para oprimir os povos originários e impor uma agenda econômica devastadora do meio ambiente que não tem nada a ver com as necessidades dos índios."

Tal desgraça não se resume ao governo Bolsonaro. "Mas agora ganhou uma força incomparável. É uma política de terra arrasada, unilateral, que impõe uma visão que não tem outro nome se não genocida."

Operação Banqueiro e 17 prêmios

Seu primeiro livro é de 2014: Operação Banqueiro (Geração Editorial), que vendeu cerca de 25 mil exemplares. "Cobria o caso Satiagraha [deflagrada Polícia Federal em 2004 e que prendeu o banqueiro Daniel Dantas] quando decidi escrever o livro. O aspecto mais difícil da apuração foi tratar de pessoas vivas —muito bem vivas— e extremamente poderosas."

Entre os 17 prêmios e menções honrosas nacionais e internacionais que Rubens recebeu na carreira, estão o Esso de Reportagem de 2001 (pelo O Globo), o Esso de Contribuição à Imprensa, em 2013, ao lado de outros colegas, e dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa).

"Algumas das principais reportagens que considero ter feito para a Folha não receberam prêmios externos ao jornal. Como a revelação, em maio de 2016, das gravações do ex-presidente da Transpetro e delator Sérgio Machado, nas quais o então ministro Romero Jucá falava sobre 'estancar a sangria' e fazer um acordo 'com Supremo, com tudo' a fim para retirar do cargo a presidente Dilma da Presidência."

Em Brasília, sem folga

Rubens conta que Brasília é uma cidade que ele aprendeu a amar, com uma natureza exuberante ao seu redor. "O que pesa mais são as oportunidades para a profissão. Brasília é um manancial de temas e de fontes qualificadas em todas as áreas."

Tantas oportunidades achatam o tempo para o lazer. "Não pratico um esporte e sei que é um erro que tende a ser fatal. Há uns 15 anos fui substituindo a atividade física pelo estudo de documentos, colaboração em documentários etc. Na prática, não paro de trabalhar." Mas, e na hora da folga, Rubens, o que faz? "Coloco a leitura em dia. Como disse, quase sempre conectado com algum trabalho em andamento. Então, folga, folga mesmo é cada vez mais rara."

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