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Sem renda, cabeleireiros e preparador físico dizem que voltam a trabalhar

Rodrigo (à dir.), Alana (centro) e Waldemberg: sem renda por causa do isolamento social - Arte/UOL
Rodrigo (à dir.), Alana (centro) e Waldemberg: sem renda por causa do isolamento social Imagem: Arte/UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

14/05/2020 04h00

Mesmo preocupados com a saúde, cabeleireiros, barbeiros e preparadores físicos dizem que devem voltar a trabalhar em meio à pandemia caso as atividades sejam liberadas como serviços essenciais, conforme prevê o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nesta semana.

O motivo é um só: falta de dinheiro. Parados há quase dois meses, os profissionais têm tentado garantir o sustento de diferentes formas, mas os ganhos estão essencialmente parados. A opção, dizem eles, é flexibilização gradativa, com novas práticas de higiene. A medida, no entanto, depende dos estados e municípios, e grande parte já se declarou contra.

"Mesmo se liberar, não vai voltar ao normal"

O salão da cabeleireira Alana de Souza, 39, em São Paulo, está fechado desde o meio de março, quando o estado entrou em quarentena. Parada, ela conseguiu fechar o primeiro mês com a venda de vouchers de R$ 200 a clientes fixas para serviços futuros.

Também continuou a oferecer os serviços em casa, mas só cerca de 20% das clientes aderiram —o que não dá nem para pagar as contas, disse. Desde então, tem sustentado a casa com a ajuda do salário do marido.

Ao ler a notícia da possível liberação, Alana conta que ficou "ansiosa e feliz", mas "passou rápido". Primeiro, por ler que o governador João Doria (PSDB) não seguiu o decreto de Bolsonaro e, segundo, porque ela avalia que o movimento não deverá voltar ao normal "tão cedo", mesmo a pós a liberação.

Mesmo que ele [Doria] libere, as clientes não vão [ao salão]. Fico me perguntando do que adianta gastar energia com autoclave [espécie de estufa], com condução, e ficar o dia inteiro sem fazer nada. Acho que vai demorar uns dois a três meses para que o movimento volte ao normal.
Alana de Souza, cabeleireira

Ainda assim, com movimento reduzido e preocupação com a saúde, ela diz que deve voltar a trabalhar no dia em que puder reabrir o salão.

Se der, eu vou, óbvio. Tomando os cuidados que já tomava, como marcar uma cliente por vez e usar álcool gel, e adicionar novos, como adotar toalhas descartáveis. A reserva [financeira] está acabando. Na situação atual, eu só tiro, não coloco. Assim não dá.
Alana de Souza, cabeleireira

"Pode abrir academia com limite de alunos"

Antes da pandemia, o personal trainer Waldemberg Cavalcante, 29, chegava a ter até nove alunos por dia em Maceió (AL), com visita a cinco ou seis academias diariamente. Com o decreto de quarentena em Alagoas no meio de março, os locais foram fechados, e os clientes, progressivamente desistindo dos exercícios caseiros.

Nos primeiros 15 dias ainda fiz alguns treinos como consultoria online. Porém, de 80% a 85% dos alunos não mantiveram a rotina e desistiram nas primeiras duas semanas.
Waldemberg Cavalcante, personal trainer

Desde então, ele está parado, se sustentando com economias que fez.

Waldemberg diz se preocupar com a própria saúde e a dos alunos, mas vê como possibilidade viável a flexibilização para abertura de academias, tanto por motivos financeiros como de saúde.

"Minha expectativa mesmo era que fosse mais flexível para a prática de exercícios físicos, visando sempre a melhoria da saúde para minimizar as chances de covid-19", avalia. Uma opção, diz ele, seria reabrir os locais e restringir o número de usuários por vez, além de aumentar a higiene.

Os cuidados seriam redobrarmos em higienização das máquinas, antes e após o uso, e com álcool sempre.
Waldemberg Cavalcante, personal trainer

Além disso, como professor, ele diz que teria o cuidado de trocar máscara e camisa a cada novo aluno.

O governo de Alagoas, no entanto, divulgou na última terça (12) que não deverá aderir ao decreto de Bolsonaro.

"Temos que nos preparar para uma nova realidade"

Rodrigo Teixeira, 39, também fechou seu salão em São Paulo no meio de março. Organizado financeiramente, ele tem conseguido se manter sem renda nesse período, mas avalia que voltaria a abrir o salão, se liberado.

Não é uma pergunta tão simples de responder [se reabriria o salão], por envolver vários critérios e diversos pontos de vista. Se estamos no meio de uma pandemia, temos que pensar de forma racional, visto que o contato é o fator predominante para o alastramento do vírus.
Rodrigo Teixeira, cabeleireiro

Para ele, uma saída seria a "liberação gradativa", com medidas para garantir sua saúde e dos clientes. "Seria estranho falar que não temo pela minha vida, isso muito me amedronta, mas [tomaria] cuidados como o uso de máscara por ambas as partes, espaçamento de horários agendados, higienização constante dos materiais de serviços e ambientes, entre outros", cita.

Infelizmente, temos que nos preparar para uma nova realidade, uma vez que ainda não existe uma vacina ou tratamento específico.
Rodrigo Teixeira, cabeleireiro

Abertura depende de estados e municípios

Em abril, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que o poder no combate à covid-19 na área da saúde cabe aos estados e municípios, e não à União. Na avaliação de advogados ouvidos pelo UOL, isso significa que são eles, em seus respectivos decretos, que podem liberar ou não estes serviços.

Economia