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Vizinho da 'Mulher da Casa Abandonada' é condenado por aplicar golpes

Pedro Vergamini promete lucro a amigos e conhecidos em sites de apostas esportivas - Reprodução/Instagram
Pedro Vergamini promete lucro a amigos e conhecidos em sites de apostas esportivas Imagem: Reprodução/Instagram

Do UOL, em São Paulo

20/12/2022 04h00Atualizada em 13/02/2023 10h33

O publicitário Pedro Vergamini, 26, foi condenado em primeira instância em dois processos por aplicar golpes de até R$ 45 mil em amigos pessoais e conhecidos da internet.

O UOL conversou com cinco pessoas que explicaram como teriam sido enganadas por Pedro Vergamini. Outras três afirmaram por mensagem que perderam dinheiro para ele da mesma forma.

A reportagem teve acesso aos processos —um de dano moral e outro de material— que correm na 37ª Vara Cível do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) e um processo criminal contra o publicitário, além de centenas de trocas de mensagens e comprovantes de depósitos feitos pelas vítimas.

Algumas das pessoas preferiram falar sob condição de anonimato, por temerem ameaças. Nesse caso, elas receberão nomes fictícios ao longo da reportagem. Outras duas aceitaram revelar sua identidade.

QUEM É PEDRO VERGAMINI

  • Publicitário que vive entre São Paulo, no bairro de classe alta de Higienópolis, e a cidade de Santos (SP).
  • Vergamini repercutiu nas redes sociais após fazer lives no Instagram em que contou fofocas sobre a família de Margarida Bonetti, retratada no podcast "A mulher da casa abandonada", de quem seria vizinho.
  • Ele exibe um padrão de vida acima da média na internet, com fotos de viagens internacionais, mas recebeu R$ 4.200 de auxílio emergencial divididos em cinco parcelas de R$ 600 e quatro de R$ 300 entre abril e dezembro de 2020, segundo o Portal da Transparência.

Vergamini não exerce a profissão de formação e atualmente não trabalha. Ativo na internet, tentou emplacar um canal no YouTube, mas seus vídeos não chegaram a ultrapassar 2 mil visualizações. Após aproveitar a onda do podcast, Vergamini teria se aproveitado da fama repentina para aplicar golpes em novos seguidores, relatam as vítimas ouvidas pelo UOL.

Nos últimos dois meses, a reportagem entrevistou seis pessoas que afirmam ter sido vítimas de golpes de Pedro Vergamini. Todas elas relatam a mesma abordagem do publicitário. Vergamini nunca atendeu a reportagem.

COMO SÃO FEITOS OS GOLPES, SEGUNDO RELATOS DAS VÍTIMAS

  • Pedro Vergamini inicia conversas com seguidores por mensagem privada no Instagram. Depois de algum tempo, ele se apresenta como consultor em sites de apostas esportivas.
  • Ele oferece seus serviços de apostador em partidas de tênis e promete lucro rápido em menos de uma semana; em troca, cobra uma comissão de 10% do valor total.
  • Em seguida, migra a conversa para o WhatsApp e lá passa os detalhes do pagamento e como a operação de apostas será feita. Ele chegou a usar uma conta própria, mas também envia os dados bancários de um amigo.
  • Ele pede para a pessoa criar uma conta no site e acesso ao login e senha para realizar as apostas. Ali, tem acesso a informações pessoais, como RG, CPF e endereço.
  • Depois de supostamente apostar, ele paga um valor simbólico para conquistar a confiança da pessoa. Na sequência, pede mais dinheiro.
  • Vergamini afirma que segue com as apostas e diz que ganhou ou perdeu o valor no site, mas assegura que realizará o pagamento. Mas isso nunca acontece.

ELA PERDEU QUASE R$ 45 MIL E SE AFUNDOU EM DÍVIDAS

Entre todas as pessoas ouvidas, Clarice* é quem mais perdeu mais dinheiro: cerca de R$ 45 mil. Entre fevereiro e março de 2021, ela fez uma série de depósitos para Vergamini após ele dizer tinha experiência em investimentos em esportes.

De acordo com ela, Vergamini disse que tinha uma corretora financeira e prometeu lucro cinco vezes maior do que o investimento feito. Entretanto, Clarice começou a suspeitar da demora para receber o dinheiro de volta e os sumiços constantes dele.

"Eu me senti coagida porque ele me ligava de madrugada e dizia que eu tinha que depositar mais dinheiro para receber tudo de volta. Entrei no cheque especial para me livrar disso, sujei meu nome, me prejudiquei. Busquei psiquiatra porque achei que ia entrar em depressão".
Clarice

Em julho de 2021, ela registrou um boletim de ocorrência contra Vergamini e entrou com um processo por danos morais e outro criminal. No dia 15 de agosto deste ano, a Polícia Civil instaurou um inquérito para apurar os crimes de estelionato e apropriação indébita cometidos pelo suspeito.

AMIGO DE INFÂNCIA CAIU EM GOLPE

No carnaval de 2020, o consultor de marketing Daniel Pandini recebeu mensagens de Pedro Vergamini no Instagram. Amigos de infância, eles não se falavam havia bastante tempo. Logo, o papo rapidamente mudou para investimentos em sites de apostas esportivas.

Pandini declara que confiou em Vergamini por causa do vínculo de amizade. Ele transferiu R$ 2.000 e, em questão de uma semana, receberia o valor total R$ 2.930.

No entanto, Vergamini começou a atrasar o pagamento a ponto de ser cobrado constantemente, até que Pandini aos poucos parou de receber mensagens do colega. O consultor também entrou na Justiça contra ele

Eu não desconfiei porque ele é de uma família de alto poder aquisitivo. Ele se esquivava da cobrança, só aí percebi que caí em um golpe.
Daniel Pandini

O QUE A JUSTIÇA DECIDIU ATÉ O MOMENTO

O advogado criminalista Frederico Brusamolin, do escritório Brusamolin Advogados, explica o andamento dos processos movidos por Clarice e Daniel Pandini.

  • Ele foi condenado em primeira instância em ambos os processos a pagar as vítimas: R$ 44.647,21 para Clarice, com correção monetária e juros, além de indenização por danos morais de R$ 5.000; Pandini deve receber R$ 3.383,74 também com correção monetária e juros.
  • A defesa de Clarice pediu à juíza Patrícia Martins Conceição o aumento do valor da indenização para R$ 10.000.
  • No processo de Pandini, a juíza Adriana Cardoso dos Reis determinou o bloqueio das contas de Vergamini; ao todo, R$ 1.073,81 foram bloqueados.
  • Pedro Vergamini não apresentou defesa em ambos os processos. Portanto, está impossibilitado de recorrer.
  • O cumprimento das sentenças pode demorar a sair, uma vez que a Justiça realizará tentativas de encontrar bens no nome de Pedro Vergamini. Existe o risco de ele não pagar as vítimas.

O QUE A POLÍCIA CIVIL DIZ SOBRE A INVESTIGAÇÃO

A delegada do 78º DP (Distrito Policial) Denise Prado está à frente das investigações do inquérito criminal e atualiza o caso:

  • Clarice* foi ouvida pelos policiais e apresentou comprovantes de transferências bancárias e Pix feitas a Pedro Vergamini.
  • A Polícia Civil intimou Pedro Vergamini duas vezes e ele não compareceu à delegacia em nenhuma delas.
  • Foram pedidas a quebra de sigilo bancário e o bloqueio provisório para atingir o limite de R$ 45 mil que Vergamini teria se apropriado de Clarice*.
  • Os agentes alegam dificuldade para encontrar o endereço de Vergamini, que tem residências em São Paulo e Santos. Atualmente, ele estaria vivendo na cidade do litoral.
  • A pena para o crime de estelionato é de 1 a 5 anos de prisão; e a de apropriação indébita é de 1 a 4 anos.

O que temos aqui é um caso clássico de estelionato: o criminoso solicita valores e depois quando a vítima pede o retorno, ele some com o dinheiro. Se existirem provas suficientes, vamos indiciá-lo e ele será responsabilizado. Denise Prado, delegada do 78º DP

O MPSP (Ministério Público de São Paulo) não quis comentar o caso e declara que aguarda o inquérito ser relatado.

A reportagem tentou por diversas vezes entrar em contato com Pedro Vergamini. Ele não respondeu a nenhuma das tentativas por ligação telefônica e e-mail. Em um dos números atribuídos ao publicitário, uma mulher que se identificou como Camila afirmou não o conhecer.

O QUE OUTRAS SUPOSTAS VÍTIMAS DIZEM SOBRE VERGAMINI

O Pedro conta histórias tristes [para justificar a falta do pagamento]. Ele disse que ficou internado em um hospital psiquiátrico, que tomava remédios para depressão. Acho que ele não tem empatia pelas pessoas.
Mara*, que afirma ter perdido R$ 700

Ele me mandou foto em uma piscina e disse que eu poderia ter a vida dele. Ele me cobrava o envio de dinheiro para cobrir as apostas, senão eu perderia tudo. Fui uma presa fácil e fiquei muito mal com isso.
Carla*, que declara ter depositado R$ 5.000

O Pedro me pediu dinheiro emprestado para apostar porque disse que tinha uma multa para pagar. Eu acompanhei os jogos e as apostas e vi que ele perdeu tudo. Ele mentiu para mim dizendo que as partidas estavam suspensas por causa da chuva.
Ana*, que conta ter transferido R$ 300