Indústria da desigualdade

Estudos mostram que indústria em crise não causa só desemprego, mas também aumenta desigualdade social

Vinicius Pereira Colaboração para o UOL, em São Paulo
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Efeitos da indústria enfraquecida

Quem nota o sumiço de produtos industrializados "made in Brazil" do dia a dia acaba, mesmo sem perceber, constatando um grave problema econômico do país: a indústria brasileira passa por dias difíceis.

Mas, para além da influência sobre fatores puramente financeiros, essa dificuldade atual da indústria também leva ao aumento da desigualdade no país.

Especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que a desigualdade de um país diminui conforme sua complexidade econômica aumenta. O problema é que, atualmente, o Brasil vem trilhando o caminho oposto, com uma economia simplificada, vide o sumiço da indústria, e sem grandes inovações.

Dessa forma, o país caminha para manter-se com desigualdade social por um longo período.

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Indústria pouco competitiva e sufocada por recessão

A queda da indústria é notada por diversos indicadores econômicos. Apenas em junho, a produção industrial recuou 5,9% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Enquanto isso, nos primeiros cinco meses do ano, São Paulo, o maior polo industrial do país, registrou o maior número de fechamentos de indústrias de transformação e extrativas da última década.

O problema, contudo, não é exclusivo de hoje. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a indústria, que chegou a representar 28% do PIB (Produto Interno Bruto) há 15 anos, ficou em 21% em 2018.

Uma indústria pouco competitiva, afetada pela abertura do mercado interno a estrangeiras e com um câmbio alto em relação ao dólar, foi quase sufocada pela recessão que chegou há cerca de cinco anos.

"Ao longo dos últimos anos, essa demanda começou a diminuir. Com o câmbio benéfico a indústrias de fora, e, com a abertura, as empresas começam a falir. Depois, quando a economia começa a dar sinais de recessão, a indústria cai muito", afirmou Juliana Inhasz, coordenadora do curso de Economia do Insper.

Mas, afinal, como esses maus resultados da indústria afetam a desigualdade no país?

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Sociedade que produz coisas simples tem desigualdade maior

Estudos recentes mostram que a estrutura produtiva da economia de um país condiciona a desigualdade e, quanto mais complexa ela for, menor a desigualdade no local.

Isso porque uma economia com mais complexidade, com indústrias fortes, tecnológicas, exige um aumento de produtividade do trabalhador, que passa a produzir bens mais valorizados e, assim, também recebe melhores salários.

Pesquisadores da Cornell University, nos EUA, combinaram métodos para mostrar que os países exportadores de produtos complexos (medidos pelo Índice de Complexidade Econômica) têm níveis mais baixos de desigualdade de renda do que os países que exportam produtos mais simples.

Segundo eles, os resultados obtidos "documentam uma correlação forte e robusta entre o índice de complexidade econômica e a desigualdade de renda".

Os pesquisadores exemplificam coletando dados de Chile e Malásia. Enquanto o país sul-americano tem renda per capita de US$ 21.044 e escolaridade média de 9,8 anos, ele é apenas o 72º colocado no ranking de complexidade econômica. Dessa forma, tem o Coeficiente de Gini de 0,49 (que vai de 0 a 1, sendo que 0 significa menos concentração de renda).

Já a Malásia, de acordo com o estudo, tem renda per capita de US$ 22.314 e escolaridade média de 9,5 anos, ambos bem próximos ao Chile, possui Gini de 0,39 (melhor que o chileno) e ocupa a 24ª posição no ranking de complexidade econômica.

Isso é um resultado empírico. Todos os países do mundo que não têm uma indústria desenvolvida, high e midle tech, são os mais desiguais. As sociedades com mais indústria têm uma classe média mais ampliada, uma boa rede de empregos, melhores salários e produtividade. Isso faz com que a desigualdade seja menor.
Paulo Gala, diretor-geral da Fator Administração de Recursos e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Esse não é o único fator de desigualdade. Mas Gala exemplifica que, enquanto países como Chile e Malásia ficam próximos em fatores como renda per capita e escolaridade média, a Malásia tem uma complexidade econômica muito maior (exporta principalmente eletrônicos) do que a chilena (exporta principalmente cobre).

Isso faz com que o índice de Gini da Malásia seja melhor que o do Chile, ou seja, há menor desigualdade no país asiático do que no sul-americano.

Como são atividades que produzem bens mais complexos, caros e valorizados no mercado mundial, isso permite pagar à mão de obra um salário maior. Também possibilita mão de obra com melhores empregos.
Fernanda Cardoso, professora de ciências econômicas da UFABC.

"As pessoas que começam a compor a massa trabalhadora vão fazer esse grande recheio de mercado interno, que, por sua vez, vai servir de estímulo para que nos próximos ciclos se criem novas atividades produtivas", disse ela.

Assim, um país que não tenha grandes indústrias manterá sua desigualdade, como no caso do Brasil. Mesmo as políticas de transferência de renda positivas, como as implantadas no país nas últimas décadas, não são suficientes para uma diminuição sustentável da desigualdade.

A desigualdade dos últimos anos diminuiu por conta de política de transferência de renda. Só que, agora, percebe-se justamente que não tivemos uma sofisticação produtiva e avanço industrial. Por isso, com a crise, a desigualdade voltou a ocorrer.
Paulo Gala

Marcelo Justo/Folhapress Marcelo Justo/Folhapress

Nem serviços nem agro produzem emprego de qualidade aqui

Enquanto a indústria brasileira cai, o agronegócio e o setor de serviços continuam a aumentar. Nos últimos 15 anos, o setor de serviços avançou de 64% do PIB para 73%. O resultado, porém, acaba não auxiliando em um aumento da renda média.

O processo que a gente vem sofrendo não é parecido com o de economias maduras, que passam pela industrialização e, depois, vão ao setor de serviços complexos. Esse setor, para nós, não compensa, pois é precarizado, não tem empregos de impacto para aumentar os níveis de renda.
Fernanda Cardoso

Já o agronegócio, que acumula resultados positivos e segurou o PIB brasileiro nos últimos anos, é, em grande parte, um concentrador natural de renda.

O grande serviço do agro é da natureza. A agregação de valor é muito baixa e as remunerações também são baixas. Isso cria uma disparidade de renda.
Juliana Inhasz

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Protecionismo é necessário, mas não pode ser muleta permanente

Sendo assim, qual seria a saída para a melhora da indústria e também uma diminuição da desigualdade? Especialistas ouvidos pelo UOL concordam que o país precisa de um projeto de longo prazo que dê condições ao setor para se desenvolver.

O grande problema, no momento, é retomar a atividade interna e a demanda. Como a indústria depende muito do mercado interno, a brasileira vai continuar na lona. Corte de juros, investimento em infraestrutura e na cadeia de óleo e gás seriam positivos.
Paulo Gala

Ele defende políticas de estímulo e incentivo, com ressalvas.

Hoje o Brasil não tem uma estratégia clara para nada. Nunca temos uma estratégia forte para nada, temos, na verdade, um acaso já que os agentes são interessados, e o agronegócio levou vantagem, pois temos características positivas para isso.
Juliana Inhasz

"A gente precisa ter um protecionismo inicial, mas me pergunto de qual tamanho, pois, pelos sinais que demos, era que isso era eterno. Seria algo condicional em busca de soluções por parte da indústria, incentivando para buscar inovação, métodos eficientes. Isso é importante, mas ele não pode ser permanente e que os agentes entendam isso com clareza", afirmou a professora.

Para Fernanda Cardoso, o setor privado não irá se recuperar sem o apoio do Estado.

No momento em que estamos, eu só enxergo um motor: o Estado, por meio de investimento em infraestrutura, ciência e tecnologia, e educação. Pensando em médio e longo prazo, o país precisa assumir o protagonismo em outras atividades, com pesquisa básica, porque é dessa forma que se gera inovação.
Fernanda Cardoso

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