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Carla Araújo

Ameaça de Bolsonaro usar "pólvora" não é endossada por militares

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

11/11/2020 04h00

Não é a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro faz declarações polêmicas que envolvem as Forças Armadas ou ainda que demonstrem seu ímpeto para governar o país como se estivesse em uma guerra.

Ontem (10), em um evento no Palácio do Planalto, no qual o governo lançou um plano denominado "Retomada do Turismo", o presidente chamou atenção para frases polêmicas, desde o Brasil "tem que deixar de ser um país de maricas" até "quando acabar a saliva, tem que ter pólvora".

O que o presidente quis dizer com utilizar pólvora?

Ele falava sobre as relações diplomáticas. Lembrando que o presidente foi um dos poucos líderes do mundo que não cumprimentou Joe Biden, que teve a vitória sobre Donald Trump reconhecida internacionalmente e deve assumir como novo presidente dos Estados Unidos no dia 20 de janeiro, ao meio dia.

Ele não citou Biden, mas disse: "Assistimos há pouco um grande candidato à chefia de estado dizer que se não apagar o fogo da Amazônia, vai levantar barreira comercial contra o Brasil", começou Bolsonaro. "Apenas diplomacia não dá. Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora. Senão não funciona".

No quartel-general do Exército, em Brasília, a ordem foi ignorar as declarações. "Sem comentários" era o mantra.

Vamos cuidar do Amapá?

O presidente almoçou com o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, nesta terça-feira. O ministro, que tinha acabado de retornar de um período de férias, tinha muitos assuntos para se inteirar - um estado com uma grave crise de energia e segurança, o Amapá. "Mostramos para ele o apoio que demos ao Estado do Amapá. Que as forças Armadas estão dando", disse o ministro, após o encontro.

Ele foi questionado sobre possíveis mudanças nas relações com os EUA, mas reforçou que só tinha tratado do Amapá, incluindo garantir que aconteçam a votação e apuração de votos no estado brasileiro no próximo dia 15."Nada além disso", disse o ministro, que é o chefe das Forças Armadas, mas que sozinho não teria o poder de declarar uma guerra caso essa fosse uma ordem de Bolsonaro.

Todo mundo vai morrer

Saindo dali, Bolsonaro usou o Salão Nobre do Palácio do Planalto para minimizar o combate ao coronavírus. "Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento, mas todos nós vamos morrer um dia. Aqui, todo mundo vai morrer", disse o Bolsonaro.

Militares ouvidos pela coluna, que costumam descartar com veemência qualquer possibilidade de apoiarem algum ímpeto mais ditatorial de Bolsonaro, disseram que o presidente às vezes "escolhe mal as palavras que usa". Isso não é novidade.

A fala de Bolsonaro, com uma provocação velada ao futuro presidente norte-americano, não é endossada pelos militares, não é levada a sério. E nem deve ser.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.