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Carla Araújo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hospitalizado, Bolsonaro contraria médicos e dá entrevista para Sikêra Jr.

15.jul.2021 - Internado em São Paulo, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entre ao vivo no programa de Sikêra Jr. - Reprodução/YouTube
15.jul.2021 - Internado em São Paulo, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) entre ao vivo no programa de Sikêra Jr. Imagem: Reprodução/YouTube
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

16/07/2021 09h12

A internação repentina, a transferência para São Paulo, a iminência de uma nova cirurgia. Os últimos acontecimentos envolvendo a saúde do presidente Jair Bolsonaro despertaram atenção da população e da imprensa.

Nas primeiras horas do dia 14 de julho, poucas informações. Enquanto o filho primogênito Flávio Bolsonaro alertava para o estado delicado de saúde do pai, ministros foram às redes sociais destacar um presidente disposto e pediram orações.

Bolsonaro segue internado no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, "mantendo evolução clínica satisfatória". De acordo com o boletim médico, foi retirada uma sonda nasogástrica e em breve o presidente deve voltar a se alimentar. "O presidente segue sem previsão de alta hospitalar", diz o boletim divulgado na noite de quinta-feira (15).

Algumas dúvidas de ordem prática surgiram no entorno do presidente nas primeiras horas que se seguiram de sua internação. Ele se licenciará? Vai despachar do hospital?

Com históricos de internações e cirurgias, Bolsonaro já despachou algumas vezes mesmo estando internado. Sempre que pode resistiu em passar o bastão ao vice-presidente Hamilton Mourão, que no dia da internação de Bolsonaro embarcou para Angola.

Não houve nenhum aviso para que Mourão cancelasse ou retornasse de viagem.

É hora de falar?

Bolsonaro foi ao HFA (Hospital das Forças Armadas), em Brasília, na madrugada de quarta-feira, com desconforto abdominal, após dias de soluço persistente. O diagnóstico foi de obstrução intestinal. Ou, como no primeiro boletim médico do hospital de São Paulo: "um quadro de suboclusão intestinal".

Durante o primeiro dia internado na capital paulista, o presidente recebeu visitas, conversou com aliados. Fez novos exames. Com a medicação fazendo efeito e a obstrução diminuindo, Bolsonaro estava comunicativo.

Apesar disso, além da agenda presencial já suspensa, havia uma dúvida. Haverá ou não a live do presidente?

Quinta-feira é o dia da semana que, desde o início de seu governo, Bolsonaro faz suas transmissões ao vivo pelas redes sociais para falar dos assuntos da semana, fazer anúncios, responder adversários.

A última live ficou marcada pela resposta do presidente da República que, usando de um linguajar chulo, disse "caguei" ao pedido de esclarecimentos, enviado por carta, pela CPI da Pandemia.

Sobre essa semana, a resposta de auxiliares pela manhã de ontem era de que "provavelmente não" haveria live. "Acho que os médicos irão orientar para que ele descanse", disse um auxiliar.

Por volta de 15h30, Bolsonaro (ou alguns dos responsáveis por alimentar suas redes sociais) avisou: "Por motivo de internação hospitalar comunico a impossibilidade de realizar a live de hoje, bem com nossa ida a Manaus fica adiada".

O presidente, que nos bastidores é apontado como um paciente difícil, iria obedecer os médicos?

Durou pouco a disciplina.

Bolsonaro decidiu mais uma vez "presentear" jornalistas simpáticos ao seu governo com uma entrevista, direto do hospital. para o apresentador Sikêra Júnior. As últimas notícias que deram destaque ao apresentador da Rede TV mostraram a fuga de patrocinadores por declarações homofóbicas.

Usando frases ditas por Bolsonaro durante a pandemia, que já vitimou mais de 539 mil brasileiros, Sikêra brincou com o estado de saúde do presidente.

"Vou falar com o senhor da maneira que eu gosto de falar, me perdoe. Vamos deixar de 'mimimi', levanta logo daí. O senhor é um atleta. Deixa de ser frouxo. Fica aí fazendo manha. Está de atestado?", disse Sikêra Jr..

O atestado de Bolsonaro está de fato em vigor. E com saúde não se brinca.

O presidente diz que tudo que sofre é consequência da facada que sofreu em 2018, faz uso político ao acusar partidos de oposição de tentarem assassiná-lo.

Quem conhece Bolsonaro, que ocupa a cadeira presidencial há dois anos e meio, sabe que muitas coisas tiram o sono do presidente atualmente.

Bolsonaro vive em meio às acusações de suposta cobrança de propina no Ministério da Saúde na compra de vacinas, que podem acabar com seu discurso de combate à corrupção, com as revelações de sua ligação embrionária com o esquema das rachadinhas e, para piorar,: com o seu eterno rival, o ex-presidente Lula na liderança das pesquisas.

Esse "combo" pesa. O presidente mesmo reclama que sua vida não é fácil.

Com todas as dificuldades, Bolsonaro quis falar com sua claque, com os que assistem um apresentador homofóbico e machista. Com piadas sem graça.

Se Bolsonaro quer cuidar da sua saúde para 2022 e reverter o quadro político, que hoje aponta que a maioria da população brasileira o considera "desonesto, falso, incompetente, despreparado, indeciso, autoritário", além de respeitar mais as orientações médicas, é melhor o presidente deixar seu lado candidato pelo menos enquanto está no hospital.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL