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Carla Araújo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Enquanto Bolsonaro aproveita imagem das Forças, Alto-Comando rechaça golpe

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

16/08/2021 16h20

A Operação Formosa, realizada nesta segunda-feira (16), em Formosa (GO), custou às Forças Armadas R$ 4 milhões e tinha como objetivo oficial apresentar as principais atividades realizadas pelos Fuzileiros Navais. Realizado há 33 anos, pela primeira vez o exercício militar foi compartilhado por Exército, Marinha e Aeronáutica e contou com a participação do presidente da República, Jair Bolsonaro.

A operação ganhou notoriedade na semana passada, após a polêmica entrega de convite feita presencialmente pela Marinha a Bolsonaro, quando blindados passaram em frente ao Palácio do Planalto no dia da votação da PEC do voto impresso, que foi rejeitada pelos deputados.

Nesta segunda-feira, rodeado de ministros, Bolsonaro, que curiosamente não incluiu o evento em sua agenda oficial, passou a manhã toda assistindo à demonstração dos 150 blindados e aeronaves. Entrou e saiu sem falar com a imprensa e não quis responder a perguntas.

O presidente tem elevado o tom principalmente contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e parece gostar de "brincar" com as armas militares para tentar passar uma suposta imagem de que teria apoio para um eventual golpe.

Além de assistir ao exercício, Bolsonaro e o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), aquele que se apresentou em sua posse como "o amortecedor" para problemas, deram tiros da arma que leva o nome de Light Gun. Boa parte da trilha sonora da exibição foi da trilha do filme "Missão Impossível".

O presidente demonstra satisfação ao mostrar seu lado militar e usa a imagem das Forças Armadas. Tem aproveitado os eventos militares para posar para fotos com as tropas, numa manobra para alimentar seus seguidores e sua milícia digital, que em tom de ameaça agora tem convocado "um último recado" para o dia 7 de setembro.

Ciro também não quis falar com a imprensa, chegou a brincar que estava sem voz, mas pareceu descontraído e se divertindo durante o evento.

Alguns ministros que acompanharam a operação, como Marcelo Queiroga (Saúde) ou Gilson Machado (Turismo), não apresentam justificativa plausível para estar ao lado do presidente durante toda uma manhã em que deveriam ter outras questões para se dedicar.

Bolsonaro usa seu entorno e aproveita do calendário oficial das Forças Armadas para reforçar sua narrativa de que poderia agir fora das linhas da Constituição e usar os militares como "poder moderador".

"Outros presidentes virão", dizem generais do Alto-Comando

Na última sexta-feira (13) boa parte do Alto-Comando do Exército participou de um evento reservado no Quartel-General, em Brasília. No dia anterior, Bolsonaro havia participado de duas cerimônias para a promoção de oficiais-generais do Exército e afirmado que "as Forças Armadas dão total apoio as decisões do presidente".

Nas rodas de conversas dos generais de alta patente, além do reconhecido desgaste que a instituição está vivendo, generais repetiam que o apoio do Exército segue os princípios estabelecidos pela Constituição.

Faziam questão inclusive de frisar que eles não respondem ao presidente Jair Bolsonaro e sim ao ocupante da cadeira presidencial.

"Servimos aos presidentes do passado. Como servimos ao atual e como serviremos aos que estão por vir. Outros presidentes virão", afirmou à coluna um desses generais que têm o domínio das tropas brasileiras.

Indagados se não seria o momento de declarações públicas que arrefecessem o apetite de Bolsonaro por um eventual golpe, os militares afirmaram que não trabalham com esse cenário e, além disso, evitar declarações públicas — e políticas — está no regimento interno.

"Não cabe ao Alto-Comando se expor e nem se posicionar politicamente", afirmam.

No selete grupo que participou da passagem de cargo de chefia do Centro de Comunicação Social do Exército havia pelo menos seis dos 15 generais que compõem o Alto-Comando, além da presença do comandante do Exército, general Paulo Sérgio.

Em seu discurso, por ocasião da despedida do general Richard Fernandez Nunes, o comandante do Exército agradeceu ao responsável pela comunicação da instituição e disse que ele soube conduzir a comunicação da Força, "em meio a um cenário complexo e volátil".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL