Gastos públicos emperram o país
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A geração contínua de déficits nas contas públicas é o obstáculo para se alcançar juros civilizados com crescimento sustentável. Pior, pode colocar a perder os ganhos obtidos até aqui.
O diagnóstico é claro e compartilhado pela grande maioria dos especialistas e economistas. O governo não conseguirá recobrar a credibilidade perdida e restaurar a normalidade nos mercados sem enfrentar a questão fiscal.
A taxa real de crescimento das despesas totais do governo central ficou em 5,8% no acumulado entre janeiro e outubro de 2024 frente ao mesmo período de 2023. A economia deve encerrar o ano crescendo em torno de 3,4%.
São vários os ralos pelos quais escoam o dinheiro público. Dentro de cada gasto ou política pública - bom(a) ou ruim - há economias a serem realizadas. A coalizão de veto que se formou em torno do tema do ajuste fiscal é danosa ao país e precisa ser combatida.
Esse conluio inclui setores da sociedade, do Congresso, dos partidos e do próprio governo. Alguns movidos por ideias ultrapassadas, que podem ser resumidos na busca por uma espécie de moto perpétuo. O gasto seria o motor permanente para crescer. Mas há também os interessados puramente em manter o status quo benéfico aos seus objetivos individuais.
Quando se fala em alterar os gastos sociais, ato contínuo, os críticos são denominados vendidos a este ou àquele grupo, diz-se que estão a serviço do mercado ou coisa que o valha. Desmonta-se, assim, há anos, qualquer iniciativa séria de controle das despesas públicas.
O mesmo ocorre quando apontamos o dedo para os gigantescos gastos tributários, para os salários exorbitantes de setores do serviço público, sobretudo no Judiciário, ou ainda para os subsídios financeiros e creditícios do Orçamento geral.
Ninguém quer mexer no seu quinhão. Mas um ajuste fiscal socialmente justo e economicamente eficaz precisa cuidar de todas essas questões. Não pode mais haver a proteção dos que batem às portas de Brasília para garantir suas benesses. Todos precisam colaborar.
Ora, o déficit público, incluindo estados, municípios, governo federal e estatais, totalizou mais de R$ 1,1 trilhão no acumulado em 12 meses até novembro. Essa conta já contempla os juros da dívida, vale dizer. Estamos falando de um déficit de 9,5% do PIB. Logo, logo chegará aos dois dígitos.
Costuma-se relativizar o número acima em razão do peso dos gastos com juros. O problema é que eles também constituem despesas, obrigações do Estado. Não podem ser caloteados os que compraram dívida para financiar, justamente, despesas não cobertas por receitas. A dívida e seu custo altíssimo só vão ser aplacados quando o governo melhorar a dinâmica das despesas que estão no seu controle.
Evidentemente, ele precisa do apoio do Congresso para isso. É preciso reformar a Constituição e as leis que estabeleceram regras hoje claramente caducas. Regras estas que obrigam, amarram, vinculam e indexam diversas políticas públicas. Do resultado, da efetividade, da escola em boas condições, do posto de saúde funcionando etc, disso ninguém quer saber. O que se busca é preservar o modelo de gastos crescentes e blindados.
Em boa medida, há os que legitimamente defendem esse modelo, com argumentação errada, a meu ver, obviamente. De outro lado, estão os que se beneficiam desse piloto automático em que se transformou o Orçamento geral no Brasil. Cada um com seu terreno particular garantido no grande loteamento orçamentário.
Vejam o escândalo das emendas parlamentares. Como tenho escrito aqui e nas minhas colunas no Estadão, o Ministro Flávio Dino acertou em cheio ao dar a batalha nessa temática.
Ou preferiremos seguir jogando dinheiro púbico para cima sem qualquer controle e fiscalização, sem transparência e, por que não dizer, sem o mínimo de decência?
Outro exemplo são os pisos constitucionais da saúde e da educação. Não faz sentido continuar com uma norma que obrigue a gastos crescentes, continuamente, de acordo com o aumento das receitas públicas.
O vetor a determinar mais ou menos gastos deve ser a qualidade da política pública, a demanda, a necessidade. Afinal, é para isso que existe o Estado: arrecadar e financiar bem as políticas públicas que façam valer as determinações da carta magna. É o bem-estar social que deve nos guiar, não o gasto pelo gasto.
A situação de déficit gigantesco e de dívida aumentando continuamente vai nos colocar, se nada for feito, na rota da inflação alta, do desemprego, dos juros na lua e da recessão. Por que não corrigimos tudo isso enquanto há tempo?
Quem tem mais legitimidade do que o Presidente Lula para liderar esse processo? O Ministro Haddad está correto ao brigar por programas de ajuste e de contenção de gastos. O que se fez até agora, entretanto, não dá nem para a cova do dente, em termos de resolver a equação desequilibrada da sustentabilidade da dívida pública.
Que 2025 seja um ano de arrumação da casa para que os ganhos sociais do crescimento e do baixo desemprego não se desmanchem rapidamente no ar.
41 comentários
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Paulo Noburu Nakazato
Felipe, a maioria das mudanças q vc propõe (e algumas já apresentadas pelo governo) tem q passar pelo congresso. O q o congresso fez? Responsabilizar o governo inteiramente pela crise é, ao meu ver, uma passação de pano (seja para os congressistas, seja para o governo passado q n teve a mesma cobrança antes da pandemia). Sei q vc cita o congresso, mas n faz sentido o governo ser o principal ator na contenção de gastos sendo q leis são feitas nas casas de outro poder, o legislativo. Em tempo: n são só as emendas. Tem muita desoneração para empresas q n trazem retornos para a sociedade e tem um lobby fortíssimo (se n o maior) para n taxar grandes fortunas e dividendos recebidos por pessoas físicas. Mas, seu texto da a impressão de q tudo é culpa do governo… sendo q sabemos q a MAIOR parte n é. Aliás, culpa do governo é desemprego na mínima, PIB de 4% e tantos outros dados q vcs economistas e analistas falharam grotescamente em projetar….
Cesar Silva do Carmo
Este eh o ponto, eh preciso ampliar o debate e partir para ações. Primeiro as pessoas precisam saber que os governos gastam demais, municípios, estados e governo federal. Depois as pessoas precisam saber que há tetos estabelecidos pela constituição para gastos com saúde e educação. Também, que muitos que acusam o governo federal de ser Gastão, estão do outro lado do balcão chantageando o governo: ou libera ou não votamos. Os eleitores do "outro" precisam aceitar que fez caca, gastou bilhões para ser reeleito, criou uma bagunça e deixou para que resolvessem, portanto não podem posar de gestores competentes. Enfim, precisamos de um acordo Nacional, pelo Bradil, sem medo que possam dizer que o Lula será o maior presidente que o país já teve. E hoje este me parece o grande problema, querem enterrar politicamente o Lula, mesmo que para isto enterrem o país.
Paulo Haroldo Ribeiro
Como é bom ler uma coluna desconectada à bolha esquerdista que domina a redação do UOL. Uma surpresa, talvez uma tentativa do portal em dizer "viu como não tem só esquerdista aqui?". Não à toa, pouquíssimos comentários sobre temas tão importantes, mas sem a bajulação costumeira ao desgoverno do ex-presidiário. Eu gostaria muito de ver um embate entre o colunista e os petistas José Paulo Kupfer e o Vinicius Torres Freire. Bem-vindo, Felipe Salto!