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Algoritmo faz ações caírem ou subirem de mentira e enganar você na Bolsa

Tony Gentile/Reuters
Imagem: Tony Gentile/Reuters

Téo Takar

Do UOL, em São Pauo

22/05/2018 04h00

Com o avanço da tecnologia nas operações do mercado financeiro, alguns investidores descobriram novas formas de blefar na Bolsa, algumas praticamente imperceptíveis ao olho humano, mas com poder suficiente para provocar altas (ou baixas) nos preços de uma determinada ação.

Um desses blefes eletrônicos é o “spoofing”, um novo tipo de manipulação do mercado financeiro, que usa algoritmos e robôs para fraudar os valores das ações, enganar os investidores e ganhar muito dinheiro com isso. Veja mais abaixo como funciona isso.

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Blefe instantâneo e quase invisível

O “spoofing” é definido como uma prática abusiva que cria um movimento artificial (de alta ou baixa) de uma ação com objetivo de influenciar investidores a reagir ao movimento e, com isso, gerar negócios na ponta oposta da operação.

O ‘spoofing’ é um blefe sofisticado, geralmente feito por meio de programas de computador, os algoritmos. Esses algoritmos acionam sistemas eletrônicos, os robôs, que lançam ordens para comprar ou vender ações na Bolsa.

A principal característica do “spoofing” é que o tamanho da ordem de compra ou de venda é muito grande, justamente para chamar a atenção dos demais investidores. A maioria dos grandes investidores atua no mercado por meio de sistemas eletrônicos.

A ordem fica registrada na Bolsa por apenas algumas frações de segundo. Mas, esse tempo é suficiente para que os computadores dos outros investidores percebam a sua “presença” e reajam.

Porém, antes que a operação seja executada (os outros investidores comprem ou vendam) completamente, o programa que criou o “spoofing” retira a ordem imediatamente. Esse processo já é suficiente para mexer com o preço da ação.

Para o ser humano, o “spoofing” é quase imperceptível. Você só notará que há algo estranho acontecendo depois de alguns segundos, quando o preço da ação subir (se for uma ordem de compra) ou cair (venda) repentinamente. E dificilmente conseguirá identificar aquele movimento como uma prática de “spoofing”.

Blefar na compra para vender com preço mais alto

“O blefe consiste em lançar uma ordem muito grande de compra de uma ação com intenção de fazer o preço subir. Na verdade, esse investidor não quer comprar as ações. Ele quer vender. Por isso, está forçando o preço da ação para cima”, afirma Isac Costa, analista de mercado de capitais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O blefe também pode acontecer no sentido inverso, ou seja, o investidor pode programar seu robô para lançar uma ordem grande de venda com objetivo de derrubar o preço e, na sequência, executar a compra realmente pretendida por um preço mais baixo.

CVM monitora mercado com sistemas eletrônicos

A CVM possui sistemas eletrônicos para acompanhar as operações do mercado desde 2011. O objetivo desses sistemas é justamente analisar casos que possam configurar práticas de manipulação de mercado.

“A pessoa que está operando no mercado não enxerga a identidade dos demais investidores, e vice-versa. As operações são protegidas pelo sigilo bancário. Mas a CVM tem acesso a esses dados e pode identificar qualquer comportamento suspeito dos investidores”, diz Costa.

“A CVM consegue ver as duas pontas (compra e venda) de uma operação. É possível perceber, por exemplo, se um grande investidor está sinalizando ao mercado que quer comprar uma ação X, quando, na verdade, ele está vendendo aquela ação.”

Primeira condenação por “spoofing” no Brasil ocorreu em março

A CVM julgou em março deste ano o primeiro caso de prática de “spoofing” no Brasil. A Paiffer Management foi multada em R$ 1,710 milhão, e seu administrador, José Joaquim Paifer, foi condenado a pagar multa de R$ 684 mil.

Conforme o diretor da CVM Henrique Machado, relator do caso, a conduta do fundo de investimento consistia basicamente em realizar negócios com preços artificiais, induzindo terceiros a comprar ou vender ações. As ofertas eram registradas, mas o fundo não tinha intenção de executá-las, buscando apenas influenciar os preços.

Blefe vale em cassino, mas na Bolsa é crime

Você já ouviu o comentário de que a Bolsa de Valores parece um cassino ou um jogo de pôquer? A comparação faz sentido quando se pensa pelo lado da aposta. Afinal, quando você compra uma ação, está apostando que seu preço vai subir. Porém, as semelhanças param por aí.

“Cassino e pôquer servem exclusivamente para entretenimento. O mercado até pode ser um entretenimento para algumas pessoas. Mas ele desempenha funções econômicas importantes”, diz Costa.

De forma geral, o investidor utiliza um grande volume de informações objetivas (concretas) antes de tomar uma decisão de investimento. O lado subjetivo, ou seja, a decisão de “apostar” em determinada ação, normalmente é apenas consequência dos dados que o investidor dispõe. “A informação é matéria-prima da decisão”, afirma Costa.

Blefe pode ser enquadrado como manipulação de mercado

E se um investidor disseminar uma informação falsa para levar outras pessoas intencionalmente ao erro? No pôquer ou no cassino, tal atitude seria vista como um blefe

Já na Bolsa, o blefe pode ser interpretado como manipulação de mercado, o que representa um crime, com pena de multa e até prisão em alguns casos. A punição para casos desse tipo está prevista na Instrução 08/1979 da CVM.

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