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Febre do gás amplia tensões no Mediterrâneo oriental

23/02/2018 17h01

Nicósia, 23 Fev 2018 (AFP) - Navios de guerra, ameaças, contratos bilionários. A descoberta de gás no Mediterrâneo oriental gerou grandes esperanças, mas também provocou tensões em uma região explosiva.

Embora ainda haja dúvidas sobre a verdadeira amplitude das reservas, as disputas acerca dos direitos e das fronteiras marítimas entre os países da região já começaram.

Trata-se de uma questão crucial pois, graças a este manancial, Chipre, Egito, Israel e Líbano esperam adquirir certa independência estratégica e até mesmo exportar gás.

Após uma série de decepções desde o lançamento, em 2011, das operações de perfuração frente à costa do Chipre, o grupo francês Total e a empresa italiana ENI anunciaram neste mês a descoberta de importantes reservas no sudoeste da ilha.

Mas o recente bloqueio por parte do exército turco a um navio de perfuração da ENI trouxe novamente à tona um conflito de longa data no território insular.

A ilha do Chipre está dividida em uma parte grega e outra turca desde 1974, quando o Exército turco invadiu o norte. O país integra a União Europeia, mas só tem controle efetivo da área grega, no sul.

A questão estratégica "está se tornando um tema de atrito", afirma Nikos Tsafos, especialista do Center for Strategic and International Studies.

- 'Política do canhão' -Dias após este atrito, a frota turca bloqueou um navio da ENI que navegava em direção a outra zona em alto-mar, próxima à parte da ilha ocupada pelo Exército turco, para começar os trabalhos de exploração. A justificativa foram "manobras militares" no setor.

Nesta sexta-feira, cinco navios de guerra turcos voltaram a bloquear um navio que tentava avançar.

As descobertas de gás, consideradas um fator que poderia contribuir para a reunificação da ilha, hoje são vistas como um grande obstáculo à retomada das negociações entre as duas partes.

Ancara exige que os líderes da República de Chipre suspendam todas as explorações até encontrarem uma solução para a divisão.

Nicósia pediu a mediação da UE, afirmando que a Turquia "violou o direito internacional".

"Eu não acho que a Turquia queira provocar um confronto, mas não acho que isso possa ser completamente descartado", opinou Andrew Neff, do escritório da IHS Markit.

Para ele, "se um dos navios de perfuração se aventurar muito longe" da zona econômica exclusiva, perto da parte do Chipre ocupada pelo Exército turco, Ancara poderia recorrer à "política do canhão para defender seus interesses".

- 'Guerra do gás' -Israel, que nos últimos anos descobriu importantes reservas de gás, anunciou em 19 de fevereiro a conclusão de um contrato "histórico" para o abastecimento de gás natural ao Egito, com o qual está ligado por um tratado de paz.

Além da perspectiva de maior independência energética, essas reservas de gás oferecem a Israel a oportunidade de exportar sua energia a outros locais e desenvolver novos vínculos estratégicos na região.

Mas a assinatura pelo vizinho Líbano de seu primeiro contrato de exploração de hidrocarbonetos em alto-mar com um consórcio de grupos franceses, italianos e russos contrariou Israel.

O acordo afeta um bloco que tem uma parte em uma zona militar disputada com Israel.

O poderoso movimento libanês Hezbollah, que tem mísseis capazes de alcançar infraestruturas de Israel em alto-mar, disse que estava disposto a defender o Estado libanês para vencer a "guerra do gás".

Apesar das intimidações, considerando as necessidades energéticas do Líbano e os contratos bilionários esperados por Israel, não interessa a nenhum dos dois lados se envolver em um conflito, considera Eyal Zisser, diretor do Departamento de História do Oriente Médio da Universidade de Tel Aviv.

"É tudo uma questão de dinheiro, todo mundo pode perder e todo mundo pode ganhar", resume.

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