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Comércios sauditas ousam permanecer abertos durante a oração

27/08/2019 15h01

Riade, 27 Ago 2019 (AFP) - Os hambúrgueres crepitam na chapa de um restaurante de Riade que se atreveu a fazer algo impensável: permanecer aberto durante o chamado à oração.

A cena era inimaginável até recentemente, quando a polícia religiosa, onipresente e temida, impunha o fechamento das lojas durante a reza.

No mês passado, as autoridades sauditas abriram a possibilidade de os estabelecimentos comerciais permanecerem abertos noite e dia, em troca de uma quantidade de dinheiro não detalhada. A imprensa pública fala de até 100 mil riais (27 mil dólares) ao ano.

O anúncio gerou certa confusão, pois até então os estabelecimentos deveriam fechar suas portas durante quatro das cinco orações do dia - todas, exceto a da madrugada, o Fajr -, ou seja, cerca de duas horas ao todo.

No tuíte, a emissora Al Arabiya tinha anunciado que o serviço de 24 horas incluia os horários de oração, mas teve que retirar a mensagem rapidamente após ser desmentido.

À espera de esclarecimentos, as lojas de alguns centros comerciais de Riade decidiram interpretar as diretrizes ao pé da letra.

- Confusão -Alguns estabelecimentos do Kingdom Centre continuam a servir os clientes durante a oração da Magrib, no pôr do sol.

O gerente do restaurante mostrou à AFP uma mensagem de texto do proprietário: "O governo decidiu autorizar lojas, restaurantes e mercados a abrir 24 horas por dia e está incluso (...) o tempo de oração".

Em outro centro comercial de Riade, o Al Nakheel, as mesmas cenas são vividas durante a oração de Al Isha, à noite. "Na maioria das vezes, as lojas continuam abertas durante as orações", disse Francis, gerente de cafeteria, à AFP.

"Os funcionários que querem orar podem fazê-lo e aqueles que optam por trabalhar também", diz o gerente de outra loja, esclarecendo que muitos desses funcionários não são muçulmanos.

A polícia religiosa está em segundo plano há três anos. Até então, ela era muito ativa, impondo ordem, garantindo a separação entre homens e mulheres e recriminando roupas que não estavam em conformidade com um código rigoroso.

Os comerciantes poderiam tirar proveito das "declarações vagas do governo para permanecerem abertos, especialmente diante da relativa ausência da polícia religiosa", disse à AFP Eman Alhusein, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

É muito cedo para avaliar o impacto financeiro dessa medida que, segundo os membros do conselho consultivo do Shura, custa à economia saudita dezenas de milhares de riais anualmente.

"Se o fechamento for facultativo, isso aumentaria a produtividade e talvez a atividade econômica global", em um país que tenta ampliar as receitas não petrolíferas e combater o desemprego juvenil, estimou Karen Young, do American Enterprise Institute.

O príncipe herdeiro Mohamed bin Salman realizou uma série de reformas, como permissão para as mulheres dirigirem, abertura do país à indústria do lazer e redução do poder dos clérigos conservadores.

- Um 'teste' -A reação dos conservadores foi limitada, devido à repressão contra todo tipo de dissidência.

No ano passado, pelo Twitter, a polícia religiosa alertou que era a abertura de estabelecimentos durança a oração era proibido por se tratar de "um dos pilares mais importantes do Islã".

Vários comerciantes interpretam a falta de diretrizes claras como uma tentativa de autoridades de aplicar uma reforma evitando a reação do núcleo mais conservador.

O Ministério de Informação e as equipes diretrizes dos centros comerciais não responderam ao pedido de esclarecimento da AFP.

De forma general, nenhuma empresa ousaria quebrar as normas explicitamente, sem a aprovação do governo, que é muito centralizador.

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