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Após Talibã, comércios de Cabul lutam para sobreviver em meio à incerteza

Desde a volta do Talibã, muitos empresários falam em fechar as portas e buscar oportunidades no exterior - Aref Karimi/AFP
Desde a volta do Talibã, muitos empresários falam em fechar as portas e buscar oportunidades no exterior Imagem: Aref Karimi/AFP

03/09/2021 16h52Atualizada em 03/09/2021 19h06

Por 10 anos, Fahad construiu uma vida confortável vendendo vestidos de noiva em sua loja em Cabul. Mas desde 15 de agosto e a chegada dos talibãs à capital afegã, ele não vendeu nenhum.

Em uma elegante alfaiataria localizada nas proximidades, o ambiente é igualmente desolador. Em duas semanas, Tanveer só conseguiu vender um Shalwar Kameez, a roupa afegã tradicional para homens.

Em sua loja de eletrônicos, Adbul Hassan confessa ter apagado a luz e desativado o sistema de ar-condicionado, na esperança de economizar algum dinheiro devido à falta de clientes nos últimos 20 dias.

O único sorridente é Fawzi, cuja família tem uma loja no bairro de Parwan-e-seh, que prospera depois de diversificar o negócio com a venda de burcas e hijabs.

Desde o retorno ao poder do movimento islâmico, as pequenas empresas lutam para sobreviver e muitos falam em fechar as portas e buscar oportunidades no exterior. "Ninguém tem dinheiro", diz Fahad em sua loja.

Basta sair às ruas de Cabul para ver as longas filas que se formam todos os dias em frente aos bancos da capital. Para evitar saques excessivos, autoridades decidiram limitá-los a 200 dólares por pessoa.

Antecipando um possível "ajuste" pelo novo regime nas próximas semanas, Fahad planeja remover a cabeça dos manequins de sua loja, para não chamar a atenção dos talibãs. "Não se pode mostrar fotos ou rostos de pessoas", explica.

Como todos os comerciantes com os quais a AFP se reuniu, Fahad pediu anonimato para ele e sua loja, por medo de retaliação. "No momento, não sabemos o que podemos fazer e o que não devemos fazer", diz. "Então, tento agir como" quando os talibãs estavam no poder, entre 1996 e 2001.

Naquela época — Fahad era adolescente — as mulheres haviam desaparecido dos espaços públicos, a televisão e a música foram proibidas e os homens eram obrigados a usar barbas longas e roupas tradicionais.

Vinte anos depois, os talibãs prometem que sua política será menos brutal. No entanto, na ausência de um governo e de regras claras, muitos afegãos não sabem o que fazer.

Em sua loja, Tanveer agora usa um shalwar kameez. "Ninguém me pediu, mas estou preocupado e fazendo isso para o caso de os talibãs virem verificar".

Tentação do exterior

Abdul Hassan se pergunta o que fará com as dezenas de telas planas de última geração expostas em sua loja se os talibãs decidirem proibir a televisão. "Faz muito tempo que não vendo nada. Não sei se tenho condições de pagar o aluguel, então desliguei a luz, para economizar dinheiro", explica. Se essa situação continuar, ele planeja deixar o país e se estabelecer no Irã e, mais tarde, na Europa.

Ao contrário, Fawzi viu uma oportunidade no retorno dos talibãs e, agora, burcas podem ser encontradas em sua loja, em meio a uma seleção improvável de meias arrastão, preservativos ou caixas de pomadas que prometem maravilhas feitas na China.

"Vendi 60 burcas em duas semanas e vendi ainda mais hijabs", disse o comerciante à AFP. Contudo, sua proposta de comprar eletrodomésticos de afegãos que tentavam fugir do país não foi bem recebida.

"Na verdade, coloquei um anúncio no Facebook e alguém me ligou", detalha. "Eles me disseram para parar, porque eu estava encorajando os afegãos a partir. Eles queriam saber quem eu era e onde ficava minha loja". Ele imediatamente excluiu o anúncio e jogou fora seu cartão telefônico.

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