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Preguiçosos e entediados? Por que o estereótipo dos millennials pode estar errado

Jessica Holland

  • Getty Images

Se você digitar "millennials são" (millennials are, em inglês) na ferramenta de buscas do Google, "preguiçosos" (lazy) será uma das primeiras opções para completar a frase.

A percepção mais comum é que os integrantes da geração nascida entre o começo dos anos 1980 e o final dos anos 1990 --também chamada de geração Y-- ficam entediados facilmente, querem gratificações instantâneas e preferem pular de bico em bico em vez de ficar em uma única empresa pelo resto de suas vidas. Em outras palavras, que não são exatamente os funcionários do ano.

Em fevereiro, o instituto de pesquisas britânico Resolution Foundation apontou que apenas um em cada 25 millennials britânicos estavam mudando de emprego todo ano na casa dos seus 20 e tantos anos.

Segundo a pesquisa, membros da geração anterior, conhecida como geração X, tinham duas vezes mais chance de trocar de trabalho quando tinham essa idade --uma coisa boa para eles em termos financeiros.

Esse tipo de movimento tende a ser acompanhado de um aumento salarial de 15% em cada mudança, além da oportunidade de aprender novas habilidades e entender que tipo de empregadores combinam com eles.

Enquanto isso, a alta de salário para aqueles que ficam na mesma empresa por um longo tempo é praticamente zero, diz o relatório da Resolution Foundation.

Trata-se de uma tendência evidente não apenas no Reino Unido, mas em todo o mundo. Em abril, o Centro de Pesquisas Pew, uma instituição de pesquisa independente baseada em Washington, publicou conclusões parecidas com base em um estudo com dados do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos.

O relatório apontou que americanos com idades entre 18 e 35 anos tinham a mesma probabilidade de continuar no mesmo emprego que seus colegas mais velhos da geração X quando estavam na mesma faixa etária.

E tem mais: entre aqueles com diplomas, os millennials tinham um currículo mais robusto do que os da geração X.

"As evidências econômicas são bem claras", diz Laura Gardiner, analista sênior de políticas da Resolution Foundation e uma das autoras do relatório sobre os millennials britânicos.

"Os jovens sempre mudaram de emprego mais do que os mais velhos, mas certamente a taxa de mobilidade caiu - para os jovens especialmente rápido, mas caiu para todos".

O fato de que os jovens estão mudando menos de emprego, acrescenta ela, "ocorre porque, pela primeira vez na história, não estão ganhando tanto quanto as outras gerações estavam quando tinham a mesma idade, 15 anos atrás".

Tempos de mudança

Nenhum dos relatórios dá respostas concretas sobre por que a mobilidade de emprego diminuiu entre os jovens.

Richard Fry, um pesquisador sênior da Pew, escreveu no sumário da pesquisa no blog da instituição que a causa pode ser a "morte da oportunidade de conseguir um emprego melhor com um empregador diferente".

Por outro lado, Gardiner aponta que os jovens podem estar menos dispostos a assumir riscos por terem crescido durante a crise financeira.

Também está ocorrendo um aumento nos contratos sem determinação de número de horas e no trabalho em agências, além do fato de que há uma mudança em curso no Reino Unido "de uma economia de fabricação para uma economia de serviços". Tudo isso, diz ela, "pode ter reduzido a confiança das pessoas em negociar mais poder".

De acordo com os pesquisadores da Deloitte, que publica anualmente uma pesquisa sobre as atitudes dos millennials, a recente instabilidade política e social do mundo desenvolvido fortaleceu o desejo dos jovens por segurança apenas nos últimos 12 meses.

A pesquisa de 2017, que entrevistou 8.000 millennials no mundo todo, apontou que os jovens dos países desenvolvidos estão menos dispostos hoje a deixar seus empregos dentro dos próximos dois anos e mais propensos a permanecer neles por cinco ou mais anos do que estavam no ano anterior.

"Nossos dados sugerem que esses tempos inseguros podem estar criando um desejo de maior estabilidade entre os millennials", diz o relatório.

Além dessa queda --menos empregos de longo prazo com promoções regulares, mais ansiedade por causa da experiência com a crise financeira e mais preocupações com o futuro--, os millennials também estão chegando à idade de fazer planos para comprar um imóvel, casar e ter filhos.

Em 2015, as mulheres millennials representavam 8 em cada dez novas mães nos Estados Unidos de acordo com Gretchen Livingston, do Centro de Pesquisas Pew, então não é surpresa que esse grupo esteja focando mais em sua estabilidade financeira.
Desejos e estereótipos

Os estereótipos sobre os millennials sugerem que eles não estão interessados nos antigos símbolos do sucesso. Mas quando se trata de um desejo profundo de âncoras básicas - uma casa, poupança para a aposentadoria, uma carreira decente e uma família - "há pouquíssima diferença entre as gerações", diz Gardiner.

Jennifer Deal, uma cientista sênior de pesquisas do Centro de Liderança Criativa em San Diego, nos EUA, e autora do livro "What Millennials Want from Work" ("O que os Millennials Querem do Trabalho", em tradução livre), concorda. "Eu não vejo valores diferentes entre as gerações", diz ela. "Eles podem ter maneiras diferentes de expresser seus valores, mas o que querem na vida e no trabalho é bastante parecido."

Com o encarecimento dos imóveis e das universidades em muitos países, esses objetivos parecem distantes para muitos millennials --outro fator que pode contribuir para o desejo de ter um único empregador.

Sete em cada dez millennials vivendo em economias desenvolvidas, de acordo com a Pesquisa Deloitte sobre Millennials de 2017, prefeririam ter um emprego fixo integral em vez de ser freelancer, e as razões dadas para essa preferência são "segurança de emprego" e "renda fixa".

"As perspectivas entre os jovens mudaram desde os anos 1970", diz Deal. "O mundo mudou", mas a reclamação de que eles não se comprometem "é um estereótipo sobre os jovens. Vimos o mesmo estereótipo em relação à geração X quando eles eram novos no mercado de trabalho".

Se há algo impedindo o desenvolvimento dos millennials, apontam as evidências, pode ser o ambiente sem precedentes em que eles se encontram, e não sua atitude em relação ao trabalho.

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