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Como uniforme afeta saúde e trabalho de comissárias de bordo: 'Temos de parecer bonecas infláveis'

Caroline Bullock - BBC Capital

Durante uma emergência médica em uma longa viagem de avião, Jade, então uma comissária de bordo, teve uma preocupação inusitada - além do passageiro que passava mal, é claro.

"Dependendo de como o passageiro cair e sua posição, eu sempre pensava que teria de ficar de quatro pressionando seu peito, usando uma saia justa que restringia meus movimentos", diz ela, que não quer identificar seu sobrenome porque ainda tem um familiar trabalhando para a companhia Virgin Atlantic.

Seu treinamento de ressuscitação cardiopulmonar havia acontecido em terra, enquanto ela usava uma calça social. Mas em um cenário real, no meio das nuvens, ela estaria vestindo seu uniforme, incluindo os exigidos batom, esmalte e saia lápis vermelhos.

"Isso me incomodava, porque poderia dificultar o atendimento em caso de emergência e poderia mostrar demais (do meu corpo)... O que vira mais alguma coisa para se preocupar em uma situação de pressão."

Para Jade, era só mais um exemplo de como os aspectos práticos de seu emprego não batiam com o restrito código de vestimenta exigidos pela imagem pública da companhia.

Sexismo no local de trabalho foi um dos temas discutidos em meio aos vários escândalos de 2017, mas parece que muito do que acontece em meio às nuvens ficou fora da discussão.

A insistência em um código de vestimenta, por exemplo, que perpetua estereótipos de gênero, para parte da tripulação das companhias aéreas parece anacrônico - e mesmo assim ele persiste.

Em um email enviado à BBC, um porta-voz da Virgin Atlantic disse que o "icônico" uniforme da companhia passou por vários testes em termos de conforto e segurança e afirmou que as comissárias podem usar calças, caso prefiram.

Pé no chão

Por trás de uma imagem de glamour, a tripulação lida com problemas de saúde física que vão de varizes até privação de sono, o que alguns comissários dizem que é exarcerbado devido às exigências de uniforme.

Para a ex-comissária da British Airways Mel Collins, o pacote de passar horas no ar incluía joanete nos pés e dores sérias nas costas. Em um voo longo típico de dez horas, ela chegava a caminhar o equivalente a 11 km em um salto médio - que era parte de seu uniforme -, segundo seu próprio leitor de passos.

Seus pés eram inchados e tinham joanetes doloridos.

Foi só quando ela foi promovida a uma posição mais sênior, liderando uma equipe de 11 comissários, que se sentiu em condições de ser mais assertiva e pediu que permitissem o uso de sapatos alternativos.

"Eles me deixaram usar um sapato sem salto, que fez uma enorme diferença no meu conforto físico", disse ela. A British Airways não comentou o fato.

'Aparência de boneca inflável'

Esses desafios não pertencem a apenas uma companhia aérea. Várias mulheres entrevistadas pela BBC, que trabalharam para diferentes empresas, disseram sofrer sexismo diariamente e atribuíram isso às rígidas exigências de vestimenta e imagem.

Elas mencionam desde comentários a respeito de sua inteligência até se sentirem ameaçadas fisicamente por passageiros.

"Um homem me disse uma vez que eu era linda mas, 'não tinha muita coisa na cabeça', só porque ele achou que eu não havia trazido sua bebida rápido o bastante", diz Jade.

"Como podemos esperar que os passageiros nos levem a sério, como pessoas que potencialmente podem salvar suas vidas, quando temos que manter uma aparência de boneca inflável?"

Em um email enviado à BBC, um porta-voz da Virgin Atlantic disse que a companhia não tolera comportamento abusivo em relação aos comissários, que são encorajados a informar aos gerentes sobre qualquer incidente, para investigação.

Mel Collins lembra da vez em que um passageiro lhe perguntou "onde estavam as jovens glamourosas" quando ela lhe serviu uma bebida.

Segundo ela, tratava-se de um incidente comum, e geralmente vinha de "homens de negócios que pareciam respeitáveis" - em vez do clichê de homens barulhentos que vão passar um final de semana com a turma de amigos.

Parte do trabalho?

A consultora de aviação Pam Chambers, da firma de advocacia The Air Law, não vê o fim dessas demonstrações de sexismo em um futuro próximo.

Ela cita o aumento da pressão nas empresas para cumprir os horários de partida e metas de performance como um grande impedimento para os comissários levarem qualquer comportamento indesejável de passageiros para seus superiores.

"Essas coisas baixas, insultos, comentários maliciosos realmente são vistos simplesmente como parte do trabalho e comuns em empregos na áreas de serviço, esperados por gestores sêniores. Espera-se que os comissários lidem com a situação e impeçam que as coisas fiquem piores", diz Chambers.

Marisa Mackle, que foi comissária de bordo da companhia aérea irlandesa Aer Lingus por cinco anos, hoje escreve sobre suas experiências e concorda com Chambers.

Ainda assim, ela pediu que um passageiro que bateu em seu traseiro fosse expulso de um voo. Naquele tempo (meados dos anos 1990), tomar uma atitude em relação a esse tipo de comportamento era muito raro, diz ela, uma atitude que acredita ter lhe lhe custado uma promoção.

"Lembro do comandante ter feito eu me sentir como se estivesse exagerando, mas eu sou muito forte e direta", diz ela, que tinha 22 anos na época. "Eu não ia tolerar ninguém me tocando, então eu insisti que a polícia do aeroporto fosse chamada, sem me importar com os custos e os atrasos", diz Mackle.

Chambers explica que, em casos de um comportamento criminoso sério, um voo pode ficar em solo e todos os passageiros serem obrigados a desembarcar. Ou seja, os atrasos e os processos internos para fazer uma reclamação formal impedem que os comissários falem algo.

Comissários querem mudança

O código de vestimenta, porém, é uma área onde a tripulação está começando a encontrar uma voz.

Uma pesquisa sobre o assunto desenvolvida pela Universidade Kings College, de Londres, entrevistou tripulantes e apontou que eles querem mais flexibilidade em termos de regras de vestuário e aparência.

Isso vai de encontro aos padrões da indústria aérea e sua "preocupação com a aparência física de sua força laboral, que vai além do código de vestimenta, incluindo questões mais amplas a respeito de gestão de aparência", diz o relatório.

Um outro estudo feito em 2015 pela firma XpertHR sobre regras de vestuário concluiu que metade das organizações pesquisadas tinham reclamações de empregados sobre suas regulações e, diante de tantos casos que chamaram a atenção, como a recepcionista que foi mandada de volta para casa em Londres por não usar salto, especialistas em recursos humanos preveem mais discussões sobre os uniformes da indústria aérea.

"Códigos de vestimenta que exigem que as mulheres usem roupas mais femininas enviam uma mensagem clara sobre os papéis considerados de homens e de mulheres no mercado de trabalho, e muitas vezes tem pouco a ver com as exigências reais do trabalho", diz Binna Kandola, psicólogo e professor na Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Kandola diz que uniformes femininos podem provocar comportamentos ofensivos por parte de alguns clientes, e diz que "não devemos mais aceitar a desculpa (da chefia) de que esse tipo de imagem da funcionária é 'o que os clientes esperam', não é mais relevante".

Emma O'Leary, uma consultora de leis trabalhistas da firma ELAS Group, concorda.

Ela recentemente aconselhou uma comissária de bordo sobre seus direitos a respeito do uso de salto alto e diz que as companhias aéreas precisam revisar suas políticas para evitar um aumento no número de reclamações, especialmente sobre sapatos e o uso de maquiagem.

"As companhias aéreas tipicamente têm aquela visão enraizada de que as mulheres precisam ter uma certa aparência e os homens outra, mas isso é antigo, não somos secretárias dos anos 1950", diz O'Leary. "Sim, você precisa ter uma boa aparência para o público e os passageiros, mas isso pode ser feito de uma forma inteligente, sem roupas restritivas e específicas em termos de gênero."

Calças a bordo

Contudo, há pequenos sinais de mudança. Um exemplo: as comissárias de bordo trabalhando para a tripulação misturada da British Airways (chamada assim porque cobre tanto rotas curtas quanto longas) podem escolher usar calças. Isso foi permitido depois que as funcionárias questionaram as regras sobre usar apenas saias.

Como uma passageira em sua antiga empresa, Aer Lingus, Mackle também aprovou a mudança a respeito da variedade de tamanhos das roupas da tripulação, um contraste significativo em relação a uma década anterior, quando ela e sua equipe raramente usavam um número maior que o 40 por medo das possíveis repercussões.

Mackle lembra como a ameaça de uma "reunião humilhante" com seus supervisores para pedir um uniforme de um número maior a impedia de ganhar peso.

"Se eu conseguia me esmagar entre o carrinho de bebidas e uma poltrona sem mover o carrinho, então eu sabia que meu peso estava ok", diz ela. "Só que eu me preocupava a respeito disso constantemente. As meninas (que tinham as reuniões) ficavam extremamente chateadas, e viravam o assunto do avião. Agora eu vejo algumas comissárias um pouco maiores, que nem sequer chegariam à fase de entrevista antes. Então há um pouco mais de diversidade nesse sentido."

Mas a indústria das companhias aéreas claramente ainda tem um longo caminho pela frente.

Como o momento em que vivemos dá força para o questionamento dos uniformes e códigos de vestimenta que promovem estereótipos de gênero, as funcionárias estão cada vez mais encontrando sua voz. As empresas precisarão respeitar isso e responder de acordo - ou enfrentarão uma forte turbulência.

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