Análise: Geração Y finalmente compra carros

Leonid Bershidsky

(Bloomberg View) - Os fabricantes de automóveis provavelmente tiveram um ano recorde nos EUA. Isso deveria nos levar a questionar o pensamento convencional de que a geração Y não gosta de ter carros. Afinal, se não é a geração mais numerosa da força de trabalho atual dos EUA que está comprando carros, quem é?

Essa noção pode ser atribuída a "A geração mais sovina", um artigo escrito por Derek Thompson e Jordan Weissman e publicado na revista The Atlantic em 2012. A ideia se tornou viral. "A geração Y reluta em comprar itens como carros, músicas e bens de luxo", disse uma apresentação recente do Goldman Sachs. "Em vez disso, ela se volta a um novo conjunto de serviços que fornece acesso a produtos sem os problemas da propriedade, dando origem ao que está sendo chamado de 'economia do compartilhamento'". Quem precisa de um carro quando existem Uber e Zipcar?

A empresa de pesquisa de mercado J.D. Power diz o contrário. Em 2014, primeiro ela disse que que a geração Y tinha ultrapassado a geração X na compra de carros novos. No segundo trimestre de 2015, a empresa disse que a cota de veículos novos comprados pela geração Y tinha disparado de 18 por cento em 2010 para 27 por cento em 2014. Isso fez com que Thompson, um dos autores da teoria original, refletisse novamente e admitisse que a demanda da geração Y por carros estava crescendo rapidamente - mesmo assim, ele disse que duvida que essa geração compre tantos carros quanto os "baby boomers".

A parte enganosa dessa discussão é que as definições do que constitui uma geração são pouco claras. Para J.D. Power, a geração Y são os nascidos entre 1977 e 1994; a definição mais tradicional abrange os nascidos entre 1982 e 2004. Além disso, é necessário definir o que é mais importante: que a geração Y seja menos apaixonada por carros do que os "baby boomers", ou que a geração Y seja mais numerosa? Ou ainda, será que a questão de gerações ainda é relevante? Talvez os números de vendas de automóveis simplesmente reflitam o fim de uma recessão e o fato de que cada vez mais pessoas possam comprar coisas de qualidade.

Uma maneira de responder a essas perguntas é usar os dados da Pesquisa sobre despesas do consumidor, do Instituto de Estatísticas de Trabalho dos EUA. Os números de 2014, divulgados recentemente, mostram que pessoas de todas as idades ficaram muito mais econômicas em relação à compra de carros. Em dólares ajustados à inflação, todos os grupos etários ativos estão gastando muito menos em carros novos hoje do que no final da década de 80. No entanto, eles estão gastando aproximadamente o mesmo em veículos usados.

Este padrão não parece ser geracional. Em geral, pessoas de todas as faixas etárias têm menos dinheiro para gastar em carros, e há alguns poucos argumentos óbvios a favor dos novos. As vendas estão batendo recordes simplesmente porque a população dos EUA aumentou 29 por cento entre 1989 e 2014.

Isso não significa que o aspecto geracional não seja importante. Pequenos SUVs, como o Chevrolet Trax e Jeep Renegade, venderam especialmente bem no ano passado. AutoTrader.com informou que, na hora de escolher carros, a geração Y "considera o que eles identificam como veículos 'práticos', mas aspiram a marcas que descrevem como 'sofisticadas', 'inovadoras' e 'estilosas'".

Tanto este relatório da AutoTrader.com quanto outro recente da J.D. Power sugerem que a conectividade à internet e outras tecnologias modernas têm um papel importante nas decisões de compra de carros da geração Y. Os membros dessa geração esperam que seus veículos ofereçam as mesmas praticidades que sua sala de estar.

A indústria automobilística não está enfrentando uma queda acentuada na demanda porque a geração Y está apaixonada pela economia compartilhada. Muitas pessoas desse grupo enorme querem ter um carro. Um dos poucos motivos que podem levá-los a escolher um modelo novo é tecnologia que não está disponível nos modelos mais antigos. Isso significa que as montadoras precisam investir em combustíveis alternativos e em condução autônoma. Também devem se posicionar na economia compartilhada, como a General Motors fez com Lyft, a BMW com DriveNow e a Daimler com car2go. A percepção de que uma marca é progressiva é importante para os novos compradores.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

 

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