Candidato da situação em Angola é um 'chofer', diz oposição

Candido Mendes e Henrique Almeida

(Bloomberg) -- O governante de Angola, José Eduardo dos Santos, se manterá no poder se o partido dele vencer as eleições neste mês, mesmo que ele deixe a presidência após 38 anos no cargo, de acordo com o principal líder da oposição.

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de Santos, escolheu o ministro da Defesa, João Lourenço, de 63 anos, como candidato à presidência na eleição de 23 de agosto. Santos permanecerá na presidência do partido e nomeou oficiais de segurança que provavelmente continuarão nos postos, de acordo com legislação aprovada pelo parlamento no mês passado.

Após décadas na presidência, Santos agora se prepara para comandar o governo dos bastidores, segundo Isaias Samakuva, líder da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), de oposição.

"Lourenço será apenas um chofer, com o chefe sentado no banco de trás dizendo a ele onde virar, quando acelerar, desacelerar e quando parar", disse Samakuva em entrevista realizada em 15 de agosto em Luanda. "Lourenço não obteve a candidatura por meio de concorrência ou eleição partidária."

Sérgio Luther Rescova, porta-voz do MPLA, não retornou telefonemas solicitando comentário para esta reportagem.

Dinheiro do petróleo

Santos, 74 anos, comandou o país contra a Unita durante uma prolongada guerra civil e um período expansão da indústria petrolífera que tornou o país a terceira maior economia da África Subsaariana. Ele é acusado de facilitar o enriquecimento pessoal de familiares e aliados e de não assistir aos pobres.

Isabel, a filha mais velha dele, tem fortuna estimada em US$ 2,3 bilhões e é a mulher mais rica da África, de acordo com o Bloomberg Billionaires Index. Enquanto isso, os índices de mortalidade infantil e materna do país estão entre os mais altos do mundo, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Durante a campanha, o MPLA prometeu melhorar as condições de vida da população e combater a corrupção. A Unita prometeu uma "nova vida" aos angolanos e uma nova direção para o país.

Mais de 90 por cento das exportações de Angola dependem do petróleo e a nação enfrenta dificuldades adicionais com a queda da cotação do barril. Após 14 anos consecutivos de expansão, a economia local ficou estagnada no ano passado.

Fundada em 1966, a Unita era um grupo rebelde que lutou contra o MPLA durante a guerra civil e abandonou as armas quando o líder Jonas Savimbi foi morto por tropas do governo em 2002. Samakuva, 71 anos, assumiu o partido no ano seguinte. A Unita foi derrotada pelo MPLA nas eleições gerais de 2008 e 2012. Uma pesquisa divulgada no website do Instituto Jean Piaget de Benguela, de Portugal, indica que o partido da situação conquistará 61 por cento dos votos na semana que vem.

'Maioria absoluta'

Samakuva afirma que partidos de oposição não conseguem divulgar suas opiniões na mídia angolana, que é estatal e dá mais tempo de televisão ao MPLA. Durante a entrevista, ele questionou a independência da Comissão Nacional Eleitoral porque 10 dos 17 comissários foram indicados pelo MPLA.

"Seja qual for a decisão que precisa ser tomada sobre qualquer assunto, eles terão maioria absoluta", disse Samakuva.

Júlia Ferreira, porta-voz da comissão eleitoral, não estava imediatamente disponível para comentar.

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