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Sonhos com Europa incitam viagem perigosa na África Ocidental

Olivier Monnier

(Bloomberg) -- Kadi Bah viu pessoas passando fome no deserto do Saara e se afogando no Mediterrâneo durante sua odisseia malsucedida de seis meses para chegar à Europa. Mas, assim que o avião das Nações Unidas que a levou de volta da Líbia para a Costa do Marfim aterrissou, ela já começou a elaborar planos para tentar novamente.

"Eu vou ficar muito orgulhosa de mim mesma se conseguir chegar à Europa; eu vou contar a todos que consegui sair", disse a cabeleireira de 23 anos. "É por isso que eu continuo tentando."

À primeira vista, a determinação de Bah para emigrar é intrigante. Ela tem uma filha de quatro anos. Ela tinha um emprego. A Costa do Marfim é uma potência econômica regional, com um crescimento anual médio de 9 por cento. Os marfinenses não se encaixam no perfil dos emigrantes que fogem da guerra e da repressão para o Ocidente.

No entanto, a Costa do Marfim está entre os principais pontos de saída da África para as pessoas que tentam chegar à Itália de barco, depois da Nigéria e da Guiné, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações, com sede em Genebra. As autoridades da ilha italiana de Lampedusa identificaram cerca de 12.000 chegadas da Costa do Marfim no ano passado, contra 7.000 em 2015.

"Parece um paradoxo, mas em algumas cidades é uma moda", afirmou Ally Coulibaly, ministro da Integração Africana e dos Ivoirienses do Exterior. "Quando o filho do vizinho consegue chegar à Itália ou à França e começa a mandar dinheiro para a família, o outro vizinho pensa que seu filho também poderia fazer isso. Ir para a Europa se transforma em um projeto comunitário."

O irônico é que a Costa do Marfim, maior produtor de cacau do mundo, normalmente atraía, em vez de fornecer, migrantes: um quarto da população nasceu em outro lugar, em outro país da África Ocidental.

Vida melhor

"Quando questionamos aqueles que retornam, descobrimos que o desemprego não é o principal motivo para as pessoas saírem", disse Issiaka Konate, diretor do departamento de marfinenses no exterior, que freta aviões para levar os migrantes de volta ao país. "As pessoas querem uma vida melhor, uma sensação de bem-estar."

Bah decidiu ir à França, ex-governante da colônia, depois de conversar com clientes do salão em Abidjan, principal cidade da Costa do Marfim, onde trabalhava. Algumas clientes se mudaram para o exterior com visto de estudante e a incentivavam pelo bate-papo do Facebook a tentar sair do país também, disse ela.

"Elas diziam que as coisas iam bem lá", disse Bah, que começou a trabalhar aos 12 anos porque os pais não podiam pagar uma escola. "Elas me deixaram com vontade de ir."

Quando voltou para a Costa do Marfim, Bah evitou seu próprio bairro, parou de usar sua conta de Facebook e selecionava suas ligações. Ela não queria que ninguém soubesse que tinha fracassado em seu sonho de chegar na Europa.

Poucas semanas depois, ela foi embora novamente.

--Com a colaboração de Ana Monteiro

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