Traficantes oferecem trabalho a ex-guerrilheiros colombianos

Matthew Bristow

(Bloomberg) -- Homens mascarados pararam Maria Gomez e o namorado enquanto viajavam por uma estrada de terra nos Andes. Eram traficantes de drogas com uma oferta de emprego.

O casal de ex-guerrilheiros aproveitava as primeiras semanas de vida em sociedade após entregarem as armas para a Organização das Nações Unidas. Eles compraram uma motocicleta com o dinheiro que receberam do governo colombiano por terem se desarmado e estavam visitando parentes que não viram durante os anos de combate.

"Dissemos a eles que éramos pessoas normais visitando a família e nos disseram para não mentir, que sabiam que éramos guerrilheiros", conta Gomez. "Falaram que, como guerrilheiros, poderíamos trabalhar com eles porque temos muitos conhecimentos valiosos."

Após o acordo de paz de 2016, o novo partido político formado por ex-combatentes se prepara para disputar sua primeira eleição no ano que vem. Enquanto isso, traficantes de cocaína consolidam seu poder nas áreas rurais antes controladas pelos rebeldes. A tentativa de recrutamento do cartel está sendo ajudada pelos erros do governo em seus esforços para reintegrar 6.000 ex-guerrilheiros à sociedade. Embora Gomez tenha recusado a oferta de trabalho, ela diz que alguns antigos companheiros de armas tiveram menos escrúpulos e voltaram à selva.

A Colômbia ainda está longe de ter paz verdadeira. O caos que se segue ao conflito pode dominar as eleições de 2018, fortalecendo opositores do acordo de paz, como os aliados do ex-presidente Álvaro Uribe.

Linha de frente

O professor universitário Peter Ortiz está na linha de frente dos esforços oficiais para reintegrar ex-guerrilheiros à sociedade. As coisas não estão funcionando como ele esperava.

Em uma manhã de segunda-feira no final de outubro, ele se deparava com uma sala de aula vazia perto do vilarejo de Santa Lucía, no norte da Colômbia. Não apareceu nem um dos ex-combatentes a quem ele deveria ensinar o básico de matemática, ciências e espanhol.

A sala de aula fica em um local onde os guerrilheiros costumavam se esconder. A obra não foi concluída e 40 por cento ou mais dos 250 ex-integrantes de uma unidade das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) debandaram nas últimas semanas. Quem ficou - a maioria não tem para onde ir - tenta suplementar o valor mensal dado pelo governo, de aproximadamente US$ 220 (equivalente a 90 por cento do salário mínimo).

Essas pessoas deveriam receber não somente educação básica, mas treinamento para trabalhar. Eles tiveram aulas de piscicultura, fotografia e computação, mas nenhum dos "projetos produtivos" que deveriam gerar emprego para eles está sequer no começo.

Os dissidentes

Além do fluxo de ex-rebeldes que vão se juntando aos traficantes, um movimento de dissidentes das FARC está se espalhando e agora soma cerca de 400 pessoas, de acordo com o Ministério da Defesa.

A tentação de se unir aos dissidentes ou cartéis é evidente.

Muitos dos ex-guerrilheiros têm pouca escolaridade e ainda não têm as habilidades necessárias para pagar as contas em uma cidade grande do país, mas conhecem as montanhas melhor do que ninguém. Sabem quem trabalha com quem, onde ficam as rotas de transporte de drogas e sabem atirar. Além disso, são muito mais disciplinados do que os malandros urbanos e delinquentes juvenis que os traficantes costumam recrutar.

Para Gomez, mais ex-companheiros se juntarão aos traficantes quando os pagamentos mensais do governo cessarem após dois anos e à medida que os ex-guerrilheiros se cansarem de viver em moradias improvisadas. Ela conta que os traficantes pagam até 2 milhões de pesos (US$ 670) por mês.

O desastre

O governo do presidente Juan Manuel Santos passou quatro anos negociando um acordo de paz com os guerrilheiros. Assim que eles entregaram as armas e se registraram como civis, a questão pareceu desabar na lista de prioridades do governo. A implementação do acordo de paz virou um "desastre", na avaliação de Sandra Borda, reitora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Jorge Tadeo Lozano, em Bogotá.

"É incrível que, após todo o esforço político que o governo fez para esse acordo ser finalmente assinado, tenhamos chegado a isso", disse Borda. "É uma combinação de negligência e falta de preocupação com o assunto."

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