Análise: Rebaixamento é novo capítulo da disputa entre Maia e Meirelles

Samy Adghirni, Simone Iglesias e Rachel Gamarski

  • Nelson Almeida/AFP

    O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (esq.) e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ)

    O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (esq.) e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ)

(Bloomberg) -- O rebaixamento do Brasil se tornou a mais nova peça no xadrez eleitoral que envolve dois dos mais importantes atores da política brasileira: o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ambos, que travam disputa velada para ser candidato à Presidência, acusam um ao outro pelo corte aplicado pela Standard & Poor's na última quinta-feira (11).

Enquanto Meirelles diz que o Congresso é um dos responsáveis pela não aprovação da reforma da Previdência, apontada no relatório da S&P como um dos fatores considerados na decisão, Maia diz que "não é justo" tentar transferir a responsabilidade para os parlamentares que já aprovaram diversos projetos a favor do governo.

"A reação de parte do governo certamente não ajuda", disse Maia em entrevista à Bloomberg.

Maia tem o controle da agenda legislativa e busca na votação da reforma da Previdência reivindicar para si o êxito de uma eventual aprovação da medida ou, ao menos, com a determinação de colocar o assunto em pauta. 

Condutor da pauta econômica do governo, Meirelles tem no seu portfólio a queda dos juros, da inflação, do desemprego, e medidas de rigor fiscal. O rebaixamento, porém, mostra que esse esforço, sem a Previdência, não foi suficiente. 

Preocupação com as reformas

Com a eleição presidencial no horizonte, Meirelles e Maia iniciaram o ano eleitoral em rota de colisão por conta da ideia de flexibilizar a regra de ouro, que proíbe o governo de fazer empréstimos para pagar gastos correntes, como salários. O embate só foi encerrado após intervenção direta do presidente Michel Temer.

No Palácio do Planalto, a avaliação de que os dois estão em campanha é boa para o governo, que não consegue colar em Temer a melhora da economia. Há preocupação, no entanto, que a disputa se acirre e prejudique a agenda de reformas. 

Segundo uma pessoa do gabinete presidencial, o caso da regra de ouro foi emblemático e quase colocou por terra o esforço para tentar aprovar a reforma da Previdência.

Isso porque a discussão sobre a capacidade de empréstimo do governo foi interpretada como sinal de que já se busca um plano B, caso a mudança no sistema previdenciário não seja aprovada, segundo a pessoa, sob a condição de anonimato.

Decisões nos próximos meses

Maia acelerou as articulações nas últimas semanas. Não quer perder tempo e tem seu partido, o DEM, jogando a favor. Segundo o ministro da Educação, Mendonça Filho, vice-presidente da legenda, há consenso interno pelo lançamento da candidatura de Rodrigo Maia. Os democratas farão convenção entre fevereiro e março.

Nossa decisão é a de ter candidato a presidente e Rodrigo [Maia] está na crista da onda. Ele é o avalista de um Brasil moderno.
Mendonça Filho, vice-presidente do DEM

Já o ministro da Fazenda pretende anunciar uma decisão entre o fim de março e início de abril, prazo para que ministros são obrigados a deixar o cargo caso queiram concorrer em 2018.

Segundo interlocutores do ministro da Fazenda, a avaliação de Meirelles é de que tanto ele quanto Maia transitam bem no mercado financeiro e trabalham no mesmo campo. Com isso, uma candidatura de Maia não deverá atrapalhar a pauta econômica, disse uma fonte próxima ao ministro. 

Diferentemente do que aconteceu em gestões anteriores, quando embates entre Congresso e Fazenda tinham impacto fiscal elevado com a aprovação de medidas contrárias à orientação da equipe econômica, agora, ambos trabalham pelo ajuste. Assim, Meirelles não pretende partir para a briga, nem deve responder a eventuais provocações do presidente da Câmara.

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