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Apple precisa admitir problema com mão de obra: Gadfly

Tim Culpan

17/01/2018 14h12

(Bloomberg) -- A Apple precisa se esforçar mais.

Apesar de todo o discurso sobre a limpeza da cadeia de abastecimento, continuam surgindo muitas histórias sobre condições de trabalho precárias e excesso de horas extras.

Todos os anos, mais ou menos nesta época, a Apple comenta com pompa o quanto cuida dos trabalhadores e do meio ambiente. Os fãs ressaltam que a empresa com sede em Cupertino, nos EUA, se esforça mais do que a maioria das colegas do setor, e estão certos.

No entanto, não faltam céticos para negar tudo isso, dizendo ser apenas discurso publicitário. E eles também estão certos em mostrar ceticismo.

Uma reportagem investigativa da Bloomberg News jogou ainda mais lenha na fogueira. Trabalhadores da Catcher Technology manipulavam, e possivelmente respiravam, produtos químicos nocivos sem equipamentos de segurança adequados. Os dormitórios e vestiários eram insatisfatórios e os trabalhadores demitidos tinham os salários retidos, medida que a China Labor Watch classifica como violação das leis trabalhistas.

A Apple, por sua vez, afirma que enviou mais auditores à fábrica da Catcher, mas não encontrou evidências de violações de seus padrões. Isso me faz pensar como é possível que a situação encontrada pela Apple (ou não encontrada) seja tão diferente daquela descoberta por grupos de defesa dos trabalhadores como a CLW e jornalistas.

Realmente acredito que a Apple está dando seu melhor e que esses esforços para limpar a cadeia de abastecimento são muito mais do que uma estratégia de marketing. Cubro a empresa e seus fornecedores há mais de uma década e fiz minhas próprias visitas a fábricas.

A cadeia de abastecimento não é um mundo de melancolia distópico.

Mas para alguns, sim, e esse é o problema.

Muitos incidentes são ignorados e a Apple parece incapaz de detê-los. É ótimo que os fornecedores tenham obtido uma pontuação de compliance em saúde e segurança de 87 em 100 possíveis em 2016 (último relatório anual disponível).

Mas não é tão bom para o trabalhador da Catcher que tem dores de cabeça devido ao ambiente de fábrica barulhento porque a empresa não distribuiu protetores auriculares. Essa pontuação de 87 por cento não faz sentido para o empregado que não recebe instruções adequadas sobre ambientes perigosos e que depois é pressionado a falsificar relatórios de compliance.

Dois meses atrás, estudantes de uma escola local foram encontrados trabalhando e fazendo uma quantidade excessiva de horas extras em uma fábrica de montagem de iPhones administrada pelo Foxconn Technology em Zhengzhou, na região central da China. Foxconn! A maior e mais importante fornecedora da Apple. A empresa que fabrica iPhones desde o princípio; que agiu quando uma onda de suicídios lançou luz sobre o império de Terry Gou; que agora tem sua própria universidade para capacitar a próxima geração de gerentes.

Em vez de simplesmente investigar e corrigir a situação, a Apple precisa questionar como é possível que a Foxconn tenha permitido que trabalhadores, mesmo que poucos, tenham sido ignorados por regras trabalhistas determinadas com clareza.

Esta é uma empresa que distribuiu mais de US$ 140 bilhões a fornecedores no ano passado, número que se multiplicou por oito desde o lançamento do iPhone. É influência suficiente para forçar os parceiros a andarem na linha.

Há alguns meses, escrevi que a empresa havia perdido a magia em sua cadeia de abastecimento porque a disciplina na fabricação diminuiu. Acredito que o mesmo possa ser dito em relação ao compliance e às auditorias.

A Apple ainda está à frente das demais em termos de gestão da cadeia de abastecimento, direitos trabalhistas e proteção ambiental.

No entanto, se Tim Cook e o diretor de operações, Jeff Williams, realmente desejarem garantir o cumprimento dos padrões da empresa, e acredito que desejam, precisam reconhecer que a abordagem atual não está funcionando muito bem.

Fornecedores inescrupulosos estão encontrando formas de driblar o processo de auditoria e mesmo parceiros bem-intencionados não possuem sistemas adequados para monitorar algo simples como os horários de trabalho.

Os executivos das empresas que buscam lucrar trabalhando com a Apple devem ser responsabilizados pessoal e financeiramente pelo cumprimento dos padrões da marca. Ameaças de cancelamento de contratos podem prejudicar apenas os trabalhadores e quase não afetam a diretoria. Mas imagine o que acontece quando um salário ou bônus é colocado em jogo.

A Catcher é um exemplo. Apesar de alguns trabalhadores terem ficado dias sem chuveiros, as ações da empresa subiram 46 por cento no ano passado, aumentando o valor da participação do presidente do conselho, Allen Hung, em cerca de 1,1 bilhão de dólares taiwaneses (US$ 37 milhões). A Catcher nega as irregularidades, mas com uma margem operacional bastante saudável, de 35 por cento em 2016, não há desculpa para sua equipe executiva reclamar da falta de dinheiro ou regatear em dormitórios e equipamentos de segurança. Isso também mostra que há muitas razões para a Apple usar incentivos financeiros (ou punições) para manter empresas do tipo na linha.

A Apple poderia participar mais da oferta e distribuição direta de equipamentos de segurança aos trabalhadores. Protetores auriculares, máscaras e luvas são baratos, então não há desculpa para que faltem. Não é questão de quem paga, mas de quem assume a responsabilidade. Os fornecedores não o fazem e a Apple poderia fazê-lo sem prejudicar sua margem bruta de 38 por cento.

Investigadores secretos deveriam ser destacados amplamente. É incrível a rapidez com que uma fábrica é capaz de arrumar a casa para receber visitantes e como tudo volta ao lugar de antes depois que eles vão embora. Mais auditorias, e mais profundas, poderiam ajudar a Apple a manter o controle sobre as condições de trabalho e a entender as reclamações que os grupos de defesa dos trabalhadores e os jornalistas descobriram.

A Apple quer melhorar as condições dos trabalhadores e o meio ambiente. Após esses tropeços regulares, é hora de admitir que é necessário buscar uma nova abordagem.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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