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Risco de surpresa baixista da inflação conta até com câmbio

Patricia Lara e Josue Leonel

19/02/2018 07h13

(Bloomberg) -- O câmbio é frequentemente mais citado como item que pode tirar a inflação dos atuais níveis confortáveis e baixos. Mas até mesmo esse componente deve dar tranquilidade para o cenário perspectivo inflacionário brasileiro em 2018 e o risco para os índices continua sendo o de surpresas baixistas ao longo do ano, repetindo o visto em dados recentes como IPCA de janeiro, IGP-10 em fevereiro e o IPC-Fipe na 2ª quadrissemana de fevereiro.

O quadro de crescimento sincronizado das economias dos EUA, Japão, China e zona do euro deve conter a valorização do dólar, diz Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, em entrevista por telefone. "De todos os preços de ativos, o câmbio é o que está mais travado, vai e volta rápido. O crescimento sincronizado no mundo acaba ancorando a moeda", diz. "Risco na inflação é mais de surpreender para baixo do que para cima."

De fato, até o BC parece ter se preparado para nova surpresa baixista no IPCA, ao mencionar, na mais recente ata do Copom, que "níveis confortáveis ou baixos" da inflação abririam espaço para um corte adicional da Selic, enquanto no comunicado divulgado imediatamente após a reunião tinha sinalizado uma interrupção no ciclo de alívio. Depois de o comportamento baixista dos alimentos ter surpreendido a autoridade monetária e analistas no ano passado, a ponto de o BC ter de escrever carta à Fazenda justificando a inflação abaixo do piso da meta, em janeiro boa parte da surpresa veio de energia elétrica, com a troca da bandeira tarifária vermelha pela verde, sem custo adicional ao consumidor.

Para a economista do Santander, Mirella Hirakawa, a inflação deve seguir sem surpreender para cima, considerando a expectativa de que a safra agrícola deve ser a segunda maior da série histórica, o que deve ajudar a manter os preços sob controle, dentro do contexto em que prevê retomada da atividade, mas que não deve trazer tantas pressões dada a ociosidade da economia.

Segundo ela, um choque cambial teria que ser de magnitude muito grande para ter tempo de gerar efeito amplo nos preços neste ano. "Defasagem do câmbio para ter impacto na economia é de 3 trimestres ou 9 meses. Pensando em uma magnitude moderada, considerando uma variação abaixo de 10% do câmbio, teria que haver choque até março para ter implicações para inflação em 2018". Previsão para o dólar na Focus é de R$ 3,30 para 2018, ante R$ 3,2311 na sexta-feira

Para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim, o câmbio segue bem ancorado e deve fechar 2018 em R$ 3,40, sem depreciação cambial intensa. Segundo ele, surpresas inflacionárias têm sido relativamente frequentes e há duas explicações para isso. "Não conhecemos como os preços da economia reagem a uma recessão muito dura, o que muda indexação, capacidade de repasse", diz o economista.

Outro argumento é o preço de alimentos, com primeiros sinais de uma boa safra. "Se juntar choque de oferta favorável e atividade fraca pode se ver uma volta da inflação lenta, abaixo da meta", diz Padovani. Mesmo assim, ele acha prudente o BC parar ciclo de corte de juros e manter a Selic em 6,75% considerando o seguinte tripé: juros nos EUA, fiscal vulnerável e eleições com forças do centro fragilizadas, que aumentam dúvida sobre a agenda de reformas.

Mirella prevê que nem mesmo a energia elétrica estragará a perspectiva de inflação confortável, ao projetar efeito ainda benéfico desse item administrado no ano. A economista diz que o cenário para 2018 contempla patamar amarelo para bandeira tarifária em maio, nível 1 de bandeira vermelha em junho até novembro e a volta da bandeira verde em dezembro.