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Governo patina em projetos importantes no Congresso

Samy Adghirni e Simone Iglesias

26/04/2018 14h55

(Bloomberg) -- No início desta semana, o presidente Michel Temer chamou senadores dos dez partidos aliados na Casa para discutir a agenda legislativa das próximas semanas. Apenas quatro apareceram.

No mesmo dia, o plenário da Câmara de Deputados, que deveria discutir e votar projetos de lei voltados ao crescimento econômico, estava praticamente vazio. Muitos acompanhavam uma partida de futebol pela televisão instalada na área reservada a café e almoço dos parlamentares.

Temer nunca foi popular, mas a destreza política acumulada em mais de meio século de vida pública permitiu que ele garantisse apoio do Congresso para algumas reformas favoráveis à economia, incluindo a reforma trabalhista. Agora, os parlamentares estão mais preocupados com as eleições em outubro. Paralelamente, Temer foi seriamente enfraquecido por seguidos escândalos de corrupção, que, no mês passado, levaram à prisão de dois amigos dele.

"O governo morreu", disse Marcos Montes, deputado federal de Minas Gerais pelo PSD, que faz parte da bancada de Temer. "O governo queimou muita gordura nas duas denúncias. Não tem reservas sobrando."

Piloto automático

Entre as propostas em jogo está a privatização da Eletrobras, avaliada em R$ 12,5 bilhões. Também ficaram de lado projetos sobre a autonomia do Banco Central e o Cadastro Positivo, que poderiam colaborar para a redução dos juros e o crescimento econômico.

"Duvido que qualquer coisa será feita em termos de reformas, infelizmente", disse James Gulbrandsen, gestor de recursos que trabalha no Rio de Janeiro para a NHC Capital, que supervisiona US$ 3,5 bilhões. "Definitivamente, a sensação é que o governo está no piloto automático."

Mesmo no MDB, a sensação é de derrota e frustração. O correligionário Fábio Ramalho, vice-presidente da Câmara, atribui a queda do apoio ao governo a trocas de cargos no início de abril que não levaram em conta as demandas de aliados importantes.

"Eletrobras, Cadastro Positivo, esquece. Está tudo enterrado", afirmou Ramalho à Bloomberg News. "O governo está enfraquecido, não consegue votar."

O governo nega que o Congresso esteja efetivamente paralisado, mas reconhece que o ritmo de trabalho diminuiu.

"Neste momento, quando as eleições se aproximam, os parlamentares preferem votar matérias não controversas", disse o ministro Carlos Marun, da Secretária de Governo, emissário de Temer no Congresso. Ele insistiu que o governo aproveitará o tempo que lhe resta. "Nosso governo é de dois anos em vez de quatro e não podemos nos dar ao luxo de parar por oito meses."

Os investidores podem se decepcionar, mas diante da extensão da crise política e dos escândalos em torno de Temer, o que surpreende é o que ele conseguiu fazer. O índice de aprovação do presidente está na casa de um dígito.

"O Congresso vive neste momento um momento de fim de feira", disse Claudio Gonçalves Couto, professor de ciência política da Fundação Getúlio Vargas. "O que o governo tinha para tocar, já tocou no ano passado."

--Com a colaboração de Aline Oyamada e Paula Sambo

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