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Era do #MeToo chega à Iconiq com acusação de agressão sexual

Gillian Tan e Simone Foxman

21/05/2018 12h49

(Bloomberg) -- Em um momento em que o movimento #MeToo faz furor, grandes investidores estão começando a analisar mais profundamente as pessoas que administram seu dinheiro. Uma das principais empresas de gestão de patrimônio do Vale do Silício acaba de mostrar o que pode acontecer de agora em diante.

A Iconiq Capital, famosa por atender à realeza do Vale do Silício, como Sheryl Sandberg e Mark Zuckerberg, demitiu em fevereiro seu chefe de imóveis, John Sauter, depois que uma investigação de antecedentes realizada por um possível investidor descobriu uma acusação de agressão sexual contra uma mulher ocorrida há quase três décadas, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. O tribunal encarregado ordenou que o caso fosse descartado, mas os executivos da Iconiq recearam que conservar Sauter prejudicaria as relações com os clientes, disse uma das pessoas.

A situação destaca um dilema atual do setor financeiro. Os investidores estão sendo encorajados a realizar verificações de antecedentes mais rigorosas sobre os administradores de recursos, possivelmente levando em conta mais décadas do que os próprios empregadores podem considerar. Pessoas próximas a Sauter dizem que ele afirma que sua demissão infringiu as leis da Califórnia que impedem que empregadores considerem casos antigos e descartados.

"Mais dessas situações vão surgir quando os alocadores se aprofundarem e fizerem mais perguntas", disse Andrew Borowiec, diretor executivo da Associação de Due Diligence de Gestão de Investimentos, que assessora grandes investidores. Isso vai obrigar as empresas de investimento a tomar decisões difíceis.

"É uma situação tão nova e há tantas variáveis envolvidas que é difícil determinar o que fazer em uma situação como essa", disse Borowiec.

Sauter, de 52 anos, não quis comentar, assim como a Iconiq, que citou uma política de não discutir publicamente questões de pessoal.

Cultura de sigilo

No ano passado, bancos e empresas de gestão de patrimônio saíram ilesos quando o movimento #MeToo sacudiu Hollywood, a política, as empresas de tecnologia e a imprensa, expondo homens poderosos por maltratarem mulheres. Isso se deve em parte à cultura de sigilo do setor financeiro, incorporada em contratos de trabalho que impedem que as reclamações se tornem públicas.

Além disso, grandes clientes de investimento se esquivam de perguntas difíceis sobre má conduta sexual há anos. Neste mês, a organização de Borowiec publicou uma pesquisa com investidores institucionais - incluindo doações, gestores de fundos de pensão, bancos privados e seguradoras - que mostrou que quase 90 por cento deles não perguntaram especificamente sobre assédio sexual ao alocar dinheiro.

A associação agora incentiva os investidores a realizar verificações de antecedentes mais rigorosas. À medida que eles fizerem isso, "mais indiscrições sairão à luz", disse Borowiec.A situação de Sauter levanta questões sobre o que deveria acontecer quando surjam incidentes ocorridos há décadas. Califórnia e São Francisco, onde a Iconiq tem sede, adotaram medidas nos últimos anos que limitam as informações que podem ser consideradas pelas empresas ao monitorar sua equipe. A ideia é possibilitar que as pessoas resolvam acusações criminais e possam encontrar um trabalho produtivo. Nenhum outro caso do tipo foi descoberto durante a carreira de Sauter.

Repórteres da matéria original: Gillian Tan em NY, gtan129@bloomberg.net;Simone Foxman em Nova York, sfoxman4@bloomberg.net