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Chave para ganhar milhões com receitas não são ingredientes

Kate Krader

22/05/2018 15h07

(Bloomberg) -- Em 2017, a equipe da empresa Sir Kensington recebeu um total estimado em US$ 140 milhões vendendo sua receita de ketchup à Unilever.

No mesmo ano, Nathan Myhrvold, um especialista em tecnologia que se tornou chef experimental, lançou o livro em cinco volumes Modernist Bread (Cooking Lab, US$ 560) em coautoria com Francisco Migoya. Esse é o segundo livro de receitas gigante de Myhrvold; ele é coautor do best-seller Modernist Cuisine at Home (Cooking Lab, US$ 625). Antes, foi diretor de tecnologia da Microsoft.

O ano foi bom para projetos caros no ramo gastronômico. Mas ocorre em um momento em que as receitas são continuamente desvalorizadas porque inundam a internet gratuitamente. As redes sociais tornaram muito fácil as pessoas copiarem os pratos umas das outras. Isso me faz pensar: como alguém poderia monetizar uma receita?

Myhrvold, que começa a trabalhar em sua próxima obra, Modernist Pizza, tem opiniões fortes em relação à propriedade da receita e ao dinheiro que ela representa. Ele pensa que se a música e a poesia podem ser protegidas por direitos autorais e monetizadas, as receitas únicas também deveriam poder.

"Certamente pode-se fazer uma comparação entre as receitas e os códigos de computador", disse, por telefone. "Uma receita de um produto diferente é como um código, que é protegido por direitos autorais."

Mas há um problema: nos EUA, a maioria das receitas não é legalmente protegida por direitos autorais. O motivo é que, em essência, elas contêm apenas nomes e proporções de ingredientes.

"A lei de direitos autorais não protege apenas artigos, ideias, fatos ou fórmulas utilitaristas. Como a comida é um artigo útil, a lei de direitos autorais se aplicará somente se a comida incorporar características altamente criativas separáveis (física ou conceitualmente) das características utilitárias do alimento", diz Natasha Reed, especialista em direitos autorais da firma de advocacia Foley Hoag, de Nova York, na revista Fine Dining Lovers.

Em outros países, a situação geralmente não é muito diferente: "essa instrução não é original, nem individual e não se qualifica como obra de arte", explica Martin Berger, do Escritório Sueco de Patentes e Registro.

E então, há alguma argumentação a favor da monetização de receitas? Myhrvold faz analogias com seu antigo trabalho no ramo de tecnologia -- e critica os plágios flagrantes de pratos.

Receitas e códigos de computador

Myhrvold conta uma história a respeito da colocação de fontes no programa Windows quando trabalhava na Microsoft, décadas atrás.

"Existem milhares de designs diferentes de fontes. Elas são uma coleção de números que representam o design. Segundo uma decisão judicial, as fontes não são protegidas, mas seus nomes são", diz Myhrvold. "As coordenadas dos pontos, que você colocaria em um programa de computador como as proporções em uma receita, não são protegidas. É uma bagunça, mas é a lei."

Da mesma forma, considere o Cronut. A técnica e receita para fritar um donut com camadas parecidas às do croissant não são protegidas, mas o chef pasteleiro Dominique Ansel registrou o nome da marca e perseguiu agressivamente as imitações. A Pepperidge Farm foi à Justiça contra a Trader Joe's pela suposta violação de seus biscoitos Milano. E a Magnolia Bakery, famosa por seus cupcakes, conseguiu registrar o alegre redemoinho de sua cobertura.

As marcas registradas, no entanto, servem para proteger a marca e não para trazer dinheiro ativamente (a menos que você considere litígios e indenizações como fonte de receita ativa). Myhrvold considera as patentes uma possível forma de monetizar uma receita -- mas, para a maioria dos chefs, isso é impraticável. O patenteamento de uma receita custa milhares de dólares e ela precisa se qualificar como única e útil. O tofu, por exemplo, tem muitas patentes porque o processo de coagulação é incomum. Existem também muitas patentes de iogurte. "Se você é a Chobani, você quer proteger suas preparações", diz.

"Se eu disser 'vou patentear minha receita de bolo de cenoura e ela é especial porque adiciono macis e pimenta vermelha', é pouco provável eu conseguir essa patente", diz Myhrvold. "Isso faz parte da esfera do que os cozinheiros fazem. Mas se for um novo composto químico que ninguém usou antes, ou algo do tipo, seria possível conseguir uma patente."

Em outras palavras, os chefs são impotentes no que diz respeito a proteger as criações, diz Myhrvold.

Ele ressalta um caso de mais de 10 anos atrás, quando um cozinheiro australiano trabalhou por todo o mundo em cozinhas de alto nível. Depois, abriu um restaurante em Melbourne, onde serviu réplicas exatas de pratos como o "macarrão de camarão" de Wylie Dufresne. O mundo da gastronomia entrou em erupção, mas não havia recurso legal: os pratos não tinham direitos autorais.

Como primeira prova do que acontece quando não se pode proteger os direitos autorais das receitas, Myhrvold cita o lendário bolo de chocolate derretido de Jean-Georges Vongerichten, feito pela primeira vez por acidente em 1986 e atualmente servido em todo o mundo. (Ao preparar bolos de chocolate individuais para uma festa com 500 convidados, Vongerichten não verificou as configurações do forno. Ele achou que o erro havia arruinado seu restaurante; em vez disso, ele foi aplaudido de pé).

"A receita de Jean-Georges dominou porque redefiniu os bolos de chocolate, e tudo o que precisa fazer é assar menos. Se ele tivesse [conseguido o direito de autor] dessa receita e ganhasse um centavo por cada 100 bolos que são servidos, ele seria dono de todos os edifícios onde funcionam seus restaurantes", diz Myhrvold.

Receitas multimilionárias

Invariavelmente, a chave para ganhar milhões com uma receita, pelo que percebo, não tem nada a ver com a receita.

"Desde o início nós protegemos nossas receitas originais em arquivos de texto com senhas", diz Scott Norton, da Sir Kensington, que começou a produzir ketchup com Mark Ramadan para um projeto da faculdade. "Nós realmente víamos as receitas como um trabalho próprio e original."

Mesmo assim, ele admite: "se não tivéssemos criado a empresa e provado o valor delas, não teria aparecido ninguém para olhar para as receitas, em si, e vê-las como algo que tem um tremendo valor sem que existisse nenhum impulso no mercado. Muito mais do que nossas receitas, que estão em constante evolução, foram a equipe e a reputação da Sir Kensington que nos trouxeram até onde estamos."

Tome como exemplo o arroz com frango de Cingapura, que sai US$ 3 a porção e foi avaliado em US$ 2 milhões. O Liao Fan Hong Kong Soya Sauce Chicken Rice & Noodle tem uma estrela no guia Michelin, mas o verdadeiro valor de sua renomada receita é maior do que aquilo que há na cabeça do vendedor ambulante Chan Hon Meng.

"A receita de um vendedor ambulante de rua depende da reputação que vem com ela, não só do molho e das técnicas", diz KF Seetoh, um especialista em turismo gastronômico na Ásia que levou o chef Anthony Bourdain para os mercados de Cingapura. "Embora muitas pareçam simples, há muito mais pequenos toques que um vendedor ambulante emblemático dá aos seus pratos do que parece. São técnicas, não apenas receitas, como a metodologia de produção em massa em uma cozinha pequena."

Seetoh estima que as receitas de vendedores ambulantes podem custar de US$ 250.000 a muitos milhões, desde que possam levar o brilho popular àqueles que a comprarem. A receita mais cara de um vendedor ambulante atualmente conhecida em Cingapura é de Kay Lee Roast Meats, cujas receitas de carne de porco com mel e pato assado foram vendidas por mais de US$ 5 milhões. "Algumas centenas de porções por dia por apenas US$ 4 a US$ 6 em um espaço com aluguel baixo e o mínimo de mão de obra é algo muito atraente para os investidores", diz Seetoh.