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Sob protestos, fundos de hedge compram jornais locais nos EUA

Gerry Smith

22/05/2018 16h31

(Bloomberg) -- Um grupo de jornalistas protestando em frente à sede de um fundo de hedge em Nova York chamou atenção para um fato pouco conhecido sobre os jornais com foco local ou estadual nos EUA: nos bastidores, instituições financeiras estão com todo o poder.

Firmas de investimento como Alden Global Capital, Chatham Asset Management e Fortress Investment Group compraram fatias controladoras em publicações que enfrentam dificuldades para se adaptar ao universo online, como Miami Herald, Providence Journal e Charlotte Observer. Os fundos trouxeram seu know-how em corte de custos para reestruturar diversos empreendimentos editoriais sobrecarregados por dívidas após a crise financeira de 2008.

Mas as novas estruturas societárias trazem questionamentos. Será que os fundos de investimento podem ajudar a salvar os jornais, tornando-os lucrativos novamente, ou vão enxugá-los até o colapso? Os jornalistas que vieram de cidades distantes, como Denver e St. Paul, no começo do mês, para protestar em frente ao escritório da Alden Global estão convencidos da segunda opção. Alguns analistas concordam.

"Eles não estão reinvestindo no negócio", disse Ken Doctor, analista de longa data do setor editorial e presidente do website Newsonomics, se referindo à Alden Global. "Está morrendo e eles vão ganhar cada dólar que puderem no caminho para o fim."

Diversos fundos de hedge se tornaram controladores de jornais nos últimos anos. A Alden Global agora é dona de aproximadamente 60 jornais diários por meio da subsidiária Digital First Media. A New Media Investment Group, administrada e controlada pela firma de private equity Fortress, é proprietária de quase 150 jornais em cidades menores como Columbus, no Estado de Ohio, e Providence, em Rhode Island, por meio da divisão GateHouse Media. O fundo de hedge Chatham é um dos maiores detentores de ações e títulos da McClatchy, que publica o Charlotte Observer e o Miami Herald.

A Alden não retornou pedido de comentário da reportagem. Um porta-voz da Fortress disse que a firma não tem qualquer papel no dia a dia da New Media. Em comunicado, o presidente da McClatchy, Craig Forman, afirmou que a Chatham não tem influência sobre as decisões operacionais.

A Alden Global fez alguns dos cortes mais profundos. No mês passado, funcionários do Denver Post criticaram publicamente o controlador, após a ordem para demitir mais 30 colegas, sendo que o quadro de pessoal já tinha encolhido de 200 empregados para menos de 100 nos últimos oito anos. Em janeiro, o Florida Times-Union, de Jacksonville, pertencente à GateHouse, anunciou planos para demitir mais de 20 funcionários ou 10 por cento do quadro de pessoal, apenas um mês após avisar que eliminaria 50 posições. Em abril, a McClatchy demitiu 15 jornalistas do Sacramento Bee.

A luta dos jornais locais é diferente daquela travada por publicações de projeção nacional, como The New York Times, que desenvolveram bem-sucedidos modelos de assinaturas, ou de jornais em grandes áreas metropolitanas, como o Boston Globe, que foram comprados por bilionários dispostos a dar apoio.

A New Media nega que as medidas para reduzir as redações sejam motivadas por lucros. Seu presidente, Michael Reed, afirma que demitiu repórteres que recebiam salários altos, mas eram improdutivos, e que pediu que os profissionais restantes escrevessem mais reportagens. A companhia também eliminou editores e designers locais e transferiu essas posições para uma central em Austin, no Texas, onde contratou mais de 300 pessoas, segundo ele.

"Estamos comprando jornais porque achamos que temos uma estratégia capaz de salvar o jornalismo local", afirmou Reed, se referindo a planos para encontrar novas fontes de receita com a venda de serviços, como assessoria de marketing online para empreendimentos regionais.