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Mexicanos devem exigir mais de presidenciáveis: Editorial

28/05/2018 15h03

(Bloomberg) -- O México acompanhará mais um debate nacional, a pouco mais de um mês da eleição presidencial, em 1º de julho. Andrés Manuel López Obrador, veterano político de esquerda que já foi prefeito da capital federal, tem liderança folgada nas pesquisas de intenção de voto.

López Obrador ganha com a insatisfação da população com o establishment. Em pesquisas de opinião, nada menos que 89 por cento dos mexicanos afirmam que o país está no caminho errado. Porém, os planos do favorito são incertos. E a falta de respeito às instituições independentes que ele demonstra é preocupante. Os eleitores têm motivos para revolta, mas deveriam exigir mais clareza do candidato em quem pretendem votar.

O ano passado foi marcado pelo maior número de assassinatos na história mexicana. Foram registrados quase 29.000 homicídios. O mandato do atual presidente, Enrique Peña Nieto, foi marcado por escândalos e acobertamentos. As ousadas reformas econômicas que ele propôs não aceleraram o crescimento. Mais de 40 por cento dos mexicanos vivem na pobreza e, nas regiões mais carentes ao sul do país, a taxa é bem mais alta.

No entanto, as soluções que López Obrador oferece são vagas. Ele falou em anistia para traficantes de drogas sem explicar o que isso significaria. Aparentemente, a resposta dele à corrupção é o próprio exemplo: "Somente eu posso combater a corrupção", ele disse. Segundo ele, a vitória contra a corrupção de alguma forma vai bancar o aumento dos gastos sociais.

Seus assessores tentaram convencê-lo a falar menos sobre reverter as reformas econômicas de Peña Nieto, mas ele não cedeu e tem atacado duramente as reformas durante a campanha.

Seu desempenho em cinco anos na prefeitura da Cidade do México sugere que López Obrador é um progressista moderado ? mas a retórica populista não esfria à medida que sua liderança se consolida. Seus poderes presidenciais seriam muito maiores. Garantir o pagamento de safras a fazendeiros, congelar o preço real da gasolina, reduzir a participação de estrangeiros no setor petrolífero, aumentar os benefícios previdenciários e ampliar o papel do Estado na economia ? tudo isso sinaliza agravamento do problema fiscal de um país sobrecarregado por dívidas crescentes.

Também são alarmantes as opiniões de López Obrador sobre a Suprema Corte, o instituto eleitoral nacional (que ele atacou em campanhas anteriores à presidência) e sobre a sociedade civil de modo geral. Por exemplo, a melhora dos regulamentos para liberdade de informação, concorrência e telecomunicações foi um dos sinais mais promissores para o futuro do país, pois o poder precisa ser disperso para o México atingir seu potencial. Isolar a recém-criada promotoria especial de influências políticas ajudaria a combater a corrupção. E López Obrador critica quem pede essas mudanças.

Ele diz que, se vencer, dará aos eleitores a chance de votar, a cada dois anos, sobre a permanência dele no cargo. Isso não substitui o sistema de freios e contrapesos, nem a competência e organização de um governo.

A tentativa do Partido Revolucionário Institucional (PRI) de restaurar o domínio que teve por décadas fracassou diante da rejeição do eleitorado. No entanto, substituir o domínio de um partido pelo domínio de uma pessoa ? o que López Obrador parece propor ? não é o caminho para restaurar a confiança no governo. O sucesso do México depende de reformas econômicas adicionais e do fortalecimento de instituições de governança democrática. É o mínimo que os eleitores deveriam exigir.