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Arábia Saudita quer calar mulheres que lutaram para dirigir

Vivian Nereim

19/06/2018 12h44

(Bloomberg) -- Na noite em que o governo saudita declarou o fim da proibição de que mulheres dirijam, Aziza al-Yousef ficou extasiada. A professora aposentada recebeu inúmeras ligações e mensagens de comemoração depois de anos de luta por essa liberdade. Ela mal podia esperar para entrar na fila para tirar sua carteira de motorista.

"Eu quero ser a primeira", disse Al-Yousef a um jornalista após o anúncio do governo em setembro.

Al-Yousef agora aguarda o grande dia atrás das grades. Ela foi detida no mês passado, junto com algumas das mais expressivas defensoras dos direitos das mulheres no reino islâmico ultraconservador. Faltando dias para a suspensão da proibição, nove das 17 pessoas detidas continuam presas, acusadas de ajudar os inimigos do Estado.

O nome delas foi estampado na primeira página de um jornal local, que as taxou de traidoras. Elas foram acusadas anonimamente de serem agentes do Catar, que está em conflito com a Arábia Saudita.

O promotor público diz que as mulheres sob custódia admitiram culpa diante de acusações como "cooperar com indivíduos e organizações hostis ao reino" e "fornecer apoio financeiro e moral a elementos hostis no exterior". As autoridades não forneceram mais detalhes sobre o que isso significa. O Centro de Comunicação Internacional do governo saudita não respondeu a pedidos de comentário.

Durante anos, as autoridades justificaram a proibição das mulheres de dirigir afirmando que a sociedade saudita não estava preparada. O islamismo não proíbe isso - na verdade, as mulheres dirigem frequentemente em todos os outros países de maioria muçulmana do mundo -, mas alguns sauditas acreditam que isso leva à corrupção moral.

Existe um verdadeiro entusiasmo em alguns círculos à medida que o grande dia, 24 de junho, se aproxima. As redes sociais estão repletas de mulheres posando orgulhosamente com sua carteira de motorista nova. As mulheres que querem dirigir dizem que estão cansadas de pagar Uber e depender de parentes do sexo masculino, que nem sempre estão por perto. "Eu preciso dirigir", disse Haya Aldosari, 35 anos, que experimentou um simulador de condução em uma exposição recente em Riad. "Mesmo que nossos costumes e tradições digam que não, eu preciso."

Mas, enquanto a vida de muitas mulheres está se expandindo no reino, a distância entre as metas do programa "Visão 2030", do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, e a realidade costuma ser grande. O jovem príncipe prometeu diversificar a economia e aliviar restrições sociais - a Bloomberg Economics estima que permitir que as mulheres dirijam poderia acrescentar US$ 90 bilhões à produção econômica até 2030 -, mas, ao mesmo tempo, ele está dificultando a situação da limitada sociedade civil do reino.

A repressão segue o caminho habitual em que um grupo no poder controla as pessoas com a seguinte mensagem: você ou está conosco ou está contra nós. O governo fechou "qualquer tipo de espaço em que as pessoas poderiam expressar suas preocupações com segurança", disse Hala Al-Dosari, pesquisadora saudita nos EUA. Em vez de vê-las como aliadas, o novo governo as via como hostis, disse ela. Ela acredita que as autoridades querem que as pessoas fiquem na linha e não pressionem por mais mudanças.

"Está claro que a liderança saudita quer acabar com todo o ativismo político independente", disse Kristin Diwan, estudiosa sênior do Arab Gulf States Institute, em Washington. "Tanto o momento das prisões quanto a campanha de difamação que as acompanha sugerem um esforço para pintar com cores nacionalistas a nova realidade das mulheres que dirigem."

É improvável que as mulheres pressionem por mudanças em público agora, dizem analistas. O futuro é o "feminismo estatal" liderado pelo governo, disse a pesquisadora Al-Dosari. A Vogue Arábia apresentou recentemente uma princesa embelezada ao volante de um Mercedes-Benz conversível vermelho na capa, chamando-a de "força motriz". A capa foi criticada por ignorar as mulheres de fora da realeza que haviam protestado nas ruas correndo grandes riscos.

"[O governo] continuará pressionando por reformas que permitirão que as mulheres sejam trabalhadoras e consumidoras", disse Al-Dosari. "O que quer que possibilite aumentar o consumo."

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