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Mercado pacificado sobre política monetária vê Copom sem emoções

Marisa Castellani e Felipe Saturnino

30/07/2018 07h00

(Bloomberg) -- São praticamente nulas as chances de aperto monetário pelo Copom nesta semana, segundo precificação extraída da curva de juros e, desta vez, discursos de economistas e operadores são coincidentes, ao contrário do que foi visto antes da reunião anterior. Um mercado pacificado em relação aos passos da política monetária espera que o Copom, nesta quarta-feira, mantenha a Selic inalterada em 6,5% e que o juro básico permaneça assim ainda por um bom tempo, pelo menos até o final do ano, mas sem que o BC ofereça sinais precisos do que fará adiante.

Trata-se de uma mudança e tanto em relação ao período que antecedeu a reunião de 20 de junho, quando um mercado disfuncional chegou a levar o dólar para perto de R$ 4,00, os juros futuros dispararam e BC e Tesouro empreenderam atuações pesadas com swaps cambiais e títulos para acalmar os ânimos. Foi necessário um arsenal de instrumentos para fazer valer o recado da autoridade de que não há relação mecânica entre política monetária e cambial, e que o BC toma decisões sobre juros considerando efeito secundário de choques sobre a inflação.

Agora, a situação é outra. O exterior ainda traz volatilidade para emergentes, mas o estresse anterior foi suavizado. O dólar fechou no menor nível em dois meses no último dia 25, cotado a R$ 3,6911. O mercado também não se abalou nem mesmo quando os índices de inflação mostraram os efeitos da greve de 11 dias dos caminhoneiros, com a certeza de que o impacto seria temporário. Os últimos dados, inclusive, mostram que este impacto já está se dissipando.

Ao mesmo tempo, a fragilidade da recuperação econômica inibe o pass-through do câmbio e não autoriza visões de pressões inflacionárias que possam comprometer as metas de inflação, de 4,5% para 2018 e de 4,25% para 2019. Estimativa do mercado é de inflação de 4,11% em 2018 e 4,10% em 2019, apontou a Focus de 23 de julho.

Ainda assim, o comunicado do Copom deve se abster de dar indicações mais precisas sobre próximos passos da política monetária, dizem os analistas.

Balanço de riscos

"Balanço de riscos não mudou: taxa de câmbio está em R$ 3,70, abaixo até do que chegamos a ver em junho e na última decisão do Copom, e a atividade econômica continua dentro da avaliação da última reunião, considerada como em recuperação, mas em ritmo mais lento que o esperado", disse Tatiana Pinheiro, economista do Santander.

Tais fatores, associados aos efeitos inflacionários dissipados da greve dos caminhoneiros, apontam que a avaliação do BC não será alterada e a comunicação deve ser semelhante à da reunião anterior, em que ele se colocou como dependente dos dados de atividade, inflação e atento ao cenário externo, disse ela.

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, a reunião do Copom será "tranquila" e o BC não precisará tomar nenhuma atitude. "A inflação mostrou que já teria aquela corcova pela greve dos caminhoneiros, e os números mostraram que era só uma corcova. As expectativas estão bem ancoradas."

Segundo Figueiredo, "na medida do possível, o BC não deveria se mexer em período de eleição, que é um período político sensível". A comunicação não vai ser assertiva, disse ele, "mas não há razão para acharmos que haverá alta de juros neste ano".

Segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, "há evidências de que a paralisação dos caminhoneiros resultou em pressão apenas temporária sobre os níveis de preços e que a depreciação do real não está gerando efeitos secundários relevantes até o momento", conforme escreveu em relatório do banco.

"Com o choque se dissipando, o que permanece como pano de fundo para o cenário de inflação é o ritmo de recuperação da economia, que se tornou mais lento após os acontecimentos recentes, em especial o aperto das condições financeiras."

Assim como Selic deve ser mantida em 6,5% nesta reunião, aumentos de juros são improváveis nas reuniões seguintes, em um "contexto de crescimento lento, elevado nível de capacidade ociosa na economia e expectativas de inflação estáveis em níveis consistentes com as metas", salvo diante de novos e significativos choques, segundo o relatório do banco. Cenário base do Itaú é de que Selic permanecerá estável em 6,5% até o fim do ano.

Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos, disse que BC e Tesouro tiveram atuações importantes para diminuir o estresse no câmbio. Entretanto, o ambiente ainda é desafiador para emergentes, com juros em alta nos EUA, idas e vindas na guerra comercial, além das incertezas internas com as eleições. "Copom não dará uma sinalização, deixará em aberto." Ela acredita que a Selic será mantida em 6,5% pelo menos até as eleições, porque o resultado do pleito deve afetar muito o câmbio, para um lado ou para o outro, na medida em que prevê um embate entre um candidato pró-reformas e outro contrário a elas. Se vencer alguém contra as reformas, o efeito secundário do câmbio sobre a inflação "é mais provável" e aí BC poderia até elevar os juros em dezembro.

  • A cobertura do Copom desta quarta-feira também será feita no formato blog pelo {TLIV} em português, a partir das 17:55
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--Com a colaboração de Patricia Lara.