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Faculdades discriminam candidatos por gênero, idade no Japão

Isabel Reynolds

14/12/2018 14h52

(Bloomberg) -- Pelo menos nove faculdades de Medicina do Japão manipularam seus sistemas de admissão para excluir mulheres e candidatos mais velhos e priorizar a entrada de filhos de ex-alunos, segundo relatório do governo divulgado nesta sexta-feira.

Quatro meses após o surgimento do escândalo da rejeição de candidatas do sexo feminino na Universidade de Medicina de Tóquio em favor de homens menos qualificados, o Ministério da Educação japonês divulgou o relatório de sua investigação sobre as 81 faculdades de Medicina do país. A conclusão é que nove instituições mantêm procedimentos de admissão inadequados e uma décima é suspeita.

As conclusões destacam as complicações enfrentadas pela campanha do primeiro-ministro Shinzo Abe para levar mais mulheres a cargos de gestão como parte da solução para a "crise nacional" do rápido envelhecimento populacional e do encolhimento da força de trabalho do Japão. Apesar de mais mulheres estarem trabalhando fora de casa no país, elas têm dificuldades para conseguir promoções para cargos seniores.

Algumas universidades já haviam tomado a iniciativa de reconhecer a discriminação após investigações de terceiros. A Universidade Juntendo, que é ligada a um hospital de Tóquio conhecido por tratar políticos e celebridades, foi a última a realizar uma entrevista coletiva sobre o assunto, nesta semana. A coletiva foi realizada após uma investigação sobre os procedimentos de admissão que mostraram que a manipulação de resultados contra mulheres e estudantes mais velhos havia excluído injustamente 165 candidatos nos últimos dois anos.

Poucas mulheres

Apenas em torno de 20 por cento dos médicos do Japão são mulheres, contra uma média de 46 por cento nos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 34 por cento nos EUA e mais de 70 por cento na Letônia, por exemplo.

Dados do governo japonês indicam há tempos que os candidatos do sexo masculino recebiam prioridade tácita para entrada em algumas faculdades de Medicina. A proporção de estudantes de Medicina do sexo feminino no Japão aumentou entre as décadas de 1970 e 1990, quando se estabilizou em cerca de um terço -- proporção que se manteve por duas décadas. Isso ocorre apesar do fato de as candidatas mulheres terem mais probabilidades de sucesso que os homens em vestibulares universitários em geral.

A Juntendo disse em um comunicado em seu website que havia manipulado os resultados para compensar a tendência de as mulheres serem mais maduras e melhores comunicadoras que os homens na idade de ingresso na universidade. Além disso, discriminou candidatos que fizeram o teste de admissão diversas vezes, segundo o comunicado.

A faculdade de Medicina da Universidade Kitasato, em Tóquio, que também reconheceu a injustiça nas admissões em comunicado em seu website nesta semana, acrescentou que admitiu uma proporção maior de mulheres e de candidatos que tentaram entrar mais de uma vez do que outras faculdades de Medicina privadas.

Um grupo de 24 mulheres rejeitadas pela Universidade de Medicina de Tóquio pede indenização, mas as vítimas de discriminação têm evitado publicidade por medo de represálias na comunidade médica do Japão, considerada hermética e dominada pelos homens, segundo a advogada Yumi Itakura, que representa o grupo. Elas aguardam uma resposta integral da faculdade, mas consideram a possibilidade de entrar com ação na Justiça, disse.

"As faculdades de Medicina são um mundo realmente machista", disse Itakura. "Aparentemente, querem deixar o assunto morrer para colocar um fim nisso, mas o nosso grupo de advogados está tentando impedir que isso aconteça."

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