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Soja brasileira perde e China sai ganhando com trégua comercial

Isis Almeida e Mario Parker

18/01/2019 14h38

(Bloomberg) -- Quando os EUA acertaram uma trégua na guerra comercial com a China no mês passado, o presidente Donald Trump declarou que o país que mais importa soja no mundo tinha voltado a comprar "tremendas quantias" de produtos americanos.

Os contratos futuros em Chicago se valorizaram naqueles dias. Mas desde então, os preços recuaram à medida que ficaram claros os benefícios para a China.

Embora compradores chineses e agricultores americanos sejam vítimas das tarifas recíprocas, a trégua inicialmente foi considerada ótima para os fornecedores americanos, com projeções de que os chineses comprariam cerca de 10 milhões de toneladas. Há relatos de que a China comprou metade disso e, ao voltar ao mercado americano, gerou um bom sentimento para as negociações comerciais e reduziu o prêmio da soja brasileira.

"Isso tudo foi estrategicamente planejado? Não sei, mas os chineses conseguiram o melhor dos mundos", disse Steve Nicholson, analista sênior do Rabobank, um dos líderes em financiamento agrícola. "Eles estão entre os melhores negociadores no mercado todo."

No ano passado, o prêmio da soja brasileira disparou após a China anunciar uma tarifa de retaliação sobre a soja americana, levando os chineses a acelerar as compras na América do Sul. A diferença de preços entre a soja brasileira e americana encolheu para apenas US$ 4 por tonelada, vindo de aproximadamente US$ 20 um mês atrás, segundo Tarso Veloso, analista da consultoria AgResource, de Chicago, que atende produtores nos dois países.

Pechinchas no Brasil

Isso significa que a China provavelmente voltará a comprar soja do Brasil quando a colheita atual chegar aos armazéns dos grandes portos, em fevereiro ou março, disse Veloso. Os fazendeiros brasileiros realizaram o plantio mais cedo do que o normal no ano passado, em parte porque esperavam lucrar com a guerra comercial entre EUA e China e porque o clima estava favorável.

"Os maiores beneficiários desse processo todo foram os chineses", afirmou Veloso. "Eles compraram soja barata nos EUA e agora vão comprar soja barata no Brasil. As decisões deles têm enorme influência no mercado internacional."

O colapso dos prêmios no mercado brasileiro também pode impactar as exportações americanas. A União Europeia, que geralmente traz soja do Brasil, passou a comprar nos EUA por causa dos preços mais baixos. A importação de soja americana pela UE mais que dobrou nesta temporada e os EUA ultrapassaram o Brasil como maior vendedor ao bloco.

Mesmo se sair um acordo comercial definitivo durante a trégua de 90 dias, ainda vai demorar para a China comprar soja americana por causa do período de colheita no Brasil e na Argentina, explicou Nicholson, do Rabobank. A Cargill, uma das maiores negociadoras de commodities agrícolas do mundo, alertou em dezembro que os EUA provavelmente tinham perdido a melhor janela de oportunidade para as vendas à China.

"A soja brasileira estará mais barata", disse Veloso. "A China já comprou para gerar um bom sentimento. Depois disso, os preços de mercado serão dominantes."

Uma resolução do conflito comercial no final do mês que vem não necessariamente sustentará os preços. Brasil e Argentina estarão embarcando a nova safra até lá, concorrendo com produto americano estocado durante a temporada inteira. Esses países também estarão competindo por uma demanda menor por parte da China, onde a procura por soja para alimentar porcos diminui por causa da Peste Suína Africana.

"Um acordo comercial prepararia o terreno para uma potencial guerra de preços, com Brasil, Argentina e EUA disputando uma demanda menor da China", disse Arlan Suderman, economista-chefe para commodities da corretora de futuros e opções INTL FCStone.

--Com a colaboração de Gerson Freitas Jr..

Repórteres da matéria original: Isis Almeida em Londres, ialmeida3@bloomberg.net;Mario Parker em Chicago, mparker22@bloomberg.net

Economia