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Coreia debate lei para aumentar presença feminina no Parlamento

Jihye Lee

31/01/2019 11h52

(Bloomberg) -- Algumas sul-coreanas estão tão frustradas com a persistência da diferença de salários entre homens e mulheres que partiram para uma estratégia radical: igualdade na representação política.

Uma proposta apresentada à Assembleia Nacional na semana passada visa preencher metade dos assentos da câmara com mulheres, que atualmente ocupam 17 por cento dos cargos. Sob essa medida, partidos que não conseguirem emplacar candidatas em pelo menos 50 por cento dos distritos disputados enfrentariam multas.

Embora a expectativa de aprovação seja baixa, o projeto de lei intensifica o debate sobre representação política e de gêneros na Coreia do Sul. Apoiadores estão enviando dinheiro para o gabinete da autora da proposta, Park Young-sun, e postando fotos dos comprovantes de transferência nas redes sociais.

"Nossa sociedade é machocêntrica", afirmou Park, representante de um distrito na área oeste de Seul, em email enviado na quarta-feira. "Há uma variedade de movimentos defendendo a igualdade de gêneros, mas ainda não é suficiente."

A rejeição à ideia também é intensa. Homens participam de grupos de discussão para criticar a proposta, que consideram exagero do feminismo.

O debate pode afetar o presidente Moon Jae-in, progressista que prometeu tornar o país um "local mais seguro para as mulheres viverem" após trabalhar no impeachment da primeira líder mulher do país, a conservadora Park Geun-hye. A promessa aumentou a popularidade de Moon entre o sexo feminino. De acordo com a Real Meter, 48,5 por cento das mulheres na casa de 20 anos aprovam seu governo, porém somente 29 por cento dos homens na mesma faixa etária têm a mesma opinião.

Diferença salarial

O gabinete de Moon não respondeu a solicitações de comentário da reportagem sobre o projeto de lei, que tem 16 proponentes, incluindo quatro parlamentares do sexo masculino.

A Coreia do Sul fica muito atrás de outras economias desenvolvidas em se tratando de igualdade salarial e participação feminina no mercado de trabalho. O país tem a pior diferença de salários entre os gêneros entre os 36 integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A diferença se estende à política. As mulheres ocupam 17 por cento dos assentos na assembleia da Coreia do Sul, segundo estatísticas da União Interparlamentar, comparado a 48,2 por cento no México, 39,6 por cento na França e 23,7 por cento nos EUA.

Park conta que sua proposta foi inspirada na legislação "parité", aprovada pela França em 2000, e nas cotas de gênero do México para candidaturas políticas. A Lei de Eleição Justa da Coreia do Sul atualmente exige que pelo menos uma mulher seja nomeada para cada distrito eleitoral e recomenda pelo menos 30 por cento de mulheres no total de candidatos a uma eleição.A Coreia do Sul já vai melhor do que o Japão, país com a segunda pior diferença de salários entre os gêneros na OCDE. As mulheres ocupam pouco mais de 10 por cento dos assentos na Câmara de Deputados e há somente uma mulher entre 19 ministros do governo japonês.

'Sexismo reverso'

A proposta incomodou alguns homens, especialmente os que têm entre 25 e 29 anos e já estão para trás das mulheres em se tratando de emprego.

As críticas chegaram a tal ponto que um dos parlamentares por trás do projeto de lei, Pyo Chang-won, organizou um seminário na Assembleia Nacional para "ouvir homens na faixa de 20 anos". Os presentes reclamaram de "sexismo reverso" e que o feminismo na Coreia do Sul estava "indo longe demais".

"Os homens da nossa geração não sentem empatia pela discriminação que as mulheres dizem que sentem", afirmou Choi Jung-won, 27 anos, durante o encontro. "O governo está sendo injusto ao dar mais voz às mulheres."

A proponente do projeto de lei, Park Young-sun, espera que o debate estimule o aumento da representação feminina no Parlamento, mesmo se a legislação não passar.

"É preciso haver pessoas qualificadas na política, mas as mulheres qualificadas não têm essa chance. Eu quero assegurar que essa chance seja dada", disse ela.

--Com a colaboração de Isabel Reynolds e Youkyung Lee.