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Arquiteta do Acordo de Paris: resistência política ameaça avanço

Dan Murtaugh

10/06/2019 13h46

(Bloomberg) -- O ano que vem será crucial no combate às mudanças climáticas, já que a resistência política ameaça prejudicar os avanços para salvar o planeta, diz Christiana Figueres, que liderou as negociações do Acordo de Paris em 2015.

Os Estados Unidos estão afrouxando a regulamentação ambiental, o Brasil eliminou a agência do governo que monitorava a mudança climática e a Austrália elegeu um partido que defende as usinas a carvão. Ações como essas poderiam impedir outros países de elevar suas metas durante o encontro em 2020 para a primeira revisão de cinco anos do pacto histórico, disse Figueres, ex-secretária executiva da Convenção das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas.

"Você tem uma realidade econômica e tecnológica que está claramente se movendo em direção a uma economia descarbonizada", disse Figueres em entrevista na semana passada em Cingapura. "Pensaríamos que esses países poderiam avançar no ano que vem, mas então temos esta realidade política."

Parte do Acordo de Paris incluiu um compromisso para que os países se reúnam a cada cinco anos e avaliem as mudanças nas tecnologias e ciências climáticas e decidam se precisam mudar seus objetivos, disse Figueres.

O retrocesso político é particularmente preocupante, porque as reduções de custos desde 2015 em geração de energia solar e eólica significam que é mais fácil para muitos países estabelecer reduções de emissões mais ambiciosas, disse Figueres. Por exemplo, o custo de vida útil de novas usinas solares, eólicas onshore e nucleares na China é de US$ 40 a US$ 80 por megawatt/hora, comparado com US$ 58 a US$ 73 para o carvão, segundo pesquisa da BloombergNEF.

Embora o mundo esteja melhor equipado agora do que em 2015 para enfrentar as mudanças climáticas, ainda há uma necessidade de investimentos em novas tecnologias que possam ajudar a descarbonizar setores como o de transporte e industrial, disse o ex-secretário de Energia dos EUA, Ernest Moniz, em outra entrevista. Captura e sequestro de carbono, armazenamento de energia de hidrogênio e biocombustíveis avançados são cruciais à medida que o combate às mudanças climáticas expande seu foco além da geração de energia.

"Concentrar-se na eletricidade pode nos levar a um bom caminho em direção aos objetivos de Paris, mas será completamente inadequado para metas profundas de descarbonização", disse Moniz. "No momento, não temos as ferramentas disponíveis para zerar as emissões de carbono até 2050."

Figueres e Moniz, que falaram à margem da Conferência Ecosperity, organizada pelo Temasek Holdings, na semana passada, foram figuras-chave das negociações para que 196 países chegassem a um acordo em 2015 para manter as temperaturas globais abaixo de 2 graus Celsius em relação aos níveis pré-industriais. Desde então, os apelos para ações concretas se tornaram mais urgentes. Um relatório da ONU no ano passado estimou que as temperaturas globais já subiram 1 grau acima dos níveis pré-industriais e poderiam chegar a 1,5 grau já em 2030.

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