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Trabalhadores do setor de alimentos exigem proteção contra vírus

Tatiana Freitas e Lydia Mulvany

25/03/2020 12h15

(Bloomberg) -- Governos federais foram rápidos em isentar fabricantes de alimentos e distribuidores de bloqueios. Afinal, as pessoas precisam comer. Agora, algumas autoridades locais e sindicatos estão na contramão.

Alguns prefeitos na América do Sul interromperam algumas etapas da produção agrícola. Sindicatos ameaçam entrar em greve por questões de segurança. E alguns trabalhadores do setor de avicultura dos Estados Unidos fizeram uma paralisação.

Esses focos de resistência ao longo da cadeia de alimentos destacam o equilíbrio necessário para conter o coronavírus e proteger trabalhadores considerados essenciais para a entrega de bens e serviços. É uma questão especialmente difícil, uma vez que problemas de transporte, de mão de obra e logísticos já dificultam o abastecimento de alimentos na era da pandemia em algumas localidades.

No Brasil, um sindicato quase conseguiu fechar dois frigoríficos de aves da JBS ao convencer um juiz de que os riscos à saúde dos trabalhadores eram muito grandes. Um dia depois, a JBS conseguiu reverter a decisão. Nos EUA, a gigante de frango Perdue Farms tenta negociar com trabalhadores depois que mais de 20 funcionários fizeram uma paralisação no frigorífico de Kathleen, Geórgia, que emprega 600 pessoas. Na segunda-feira, a Sanderson Farms anunciou que o teste de um funcionário deu positivo para coronavírus, o primeiro caso do setor de processamento de carnes nos EUA.

"Esses bravos trabalhadores fizeram a paralisação para proteger a si mesmos, a comunidade e o público", disse Debbie Berkowitz, diretora do programa de saúde e segurança de trabalhadores do National Employment Law Project. Segundo ela, trabalhadores do setor de carnes devem receber aumento de salário devido aos riscos assumidos.

A todo vapor

Embora nenhum dos incidentes nos frigoríficos tenha causado problemas operacionais, existe a preocupação de que a resistência de trabalhadores tende a aumentar, o que pode provocar cortes na cadeia de suprimentos justo quando consumidores estocam alimentos em meio a quarentenas.

O setor de suínos dos EUA solicitou mais vistos para trabalhadores temporários, e há informações de que as fábricas funcionam a todo vapor, não apenas para suprir a demanda sem precedentes de alimentos no varejo, mas também para obter o máximo de produção possível antes que bloqueios decorrentes do surto diminuam o ritmo.

O setor de carnes não é o único. Alguns prefeitos da principal região agrícola no Brasil decidiram suspender o transporte como forma de conter o vírus. O prefeito de Canarana, no Mato Grosso, suspendeu o transporte de grãos com caminhões de armazéns para terminais de exportação, e o prefeito de Rondonópolis ordenou a paralisação de unidades de processamento de soja. Oficinas mecânicas também enfrentam restrições, o que pode atrapalhar a manutenção dos caminhões que percorrem longos percursos.

Na vizinha Argentina, um prefeito proibiu na semana passada a passagem de caminhões em uma seção importante do centro graneleiro do Rio Paraná. Sindicatos de trabalhadores portuários no Brasil e na Argentina também buscam garantias de que setores e trabalhadores isentos dos bloqueios estão seguros.

Embora um decreto presidencial na Colômbia afirme que trabalhadores das cadeias de suprimentos agrícolas podem se deslocar livremente, alguns prefeitos não têm respeitado a ordem, disse Manuel Rueda, gerente-geral da Integra Trading SAS.

No entanto, os sistemas alimentares internacionais dependem da mão de obra local.

"Estamos solicitando aos estados e ao governo federal que intervenham nas decisões dos prefeitos", disse Edeon Vaz Ferreira, diretor executivo do Movimento Pró-Logística da Aprosoja, no Mato Grosso. "Essas ações ainda não resultaram em problemas reais, mas estamos agindo com antecedência."

©2020 Bloomberg L.P.