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Demanda global por petróleo ainda não atingiu pico, diz AIE

Javier Blas

25/05/2020 07h00

(Bloomberg) -- O consumo global por petróleo não atingiu o pico, alertou o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia, jogando um balde de água fria na esperança de que o coronavírus reduza a demanda e as emissões causadas pela mudança climática.

"Na ausência de políticas governamentais fortes, uma recuperação econômica sustentada e baixos preços do petróleo devem levar a demanda global de petróleo de volta para onde estava e além", disse Fatih Birol em entrevista.

No ano passado, o consumo global de petróleo totalizou quase 100 milhões de barris por dia. Alguns especialistas do setor de energia acreditam que o volume pode marcar o pico da demanda global. A hipótese é que o surto de coronavírus vai desencadear mudanças, como o trabalho remoto generalizado e menos viagens ao exterior, o que deve reduzir o consumo permanentemente.

"Poderia ser o pico do petróleo? Possivelmente. Possivelmente. Eu não descartaria isso", disse o diretor-presidente da BP, Bernard Looney, em entrevista ao Financial Times.

Se o pico for esse, isso teria grades implicações para a mudança climática, uma vez que a queima de menos petróleo reduziria permanentemente emissões de gases do efeito estufa, facilitando o caminho para atingir os objetivos da Acordo de Paris. Mas Birol alertou governos que o coronavírus só reduzirá brevemente a demanda por petróleo: o consumo deve cair em 2020 para cerca de 91 milhões de barris por dia e se recuperar em 2021 e nos anos seguintes.

"Mudanças comportamentais em resposta à pandemia são visíveis, mas nem todas são negativas para o uso de petróleo. As pessoas estão trabalhando mais em casa, mas, quando de fato viajam, é mais provável que estejam em carros do que em transporte público", disse Birol à Bloomberg News de Paris. "A videoconferência não resolverá nossos desafios de energia e clima, boas políticas governamentais poderiam."

Birol pede aos governos que usem os pacotes de recuperação econômica para combater as mudanças climáticas, investindo em energia verde para ajudar a alcançar as metas estabelecidas no acordo de Paris de 2016.

A meta mais ambiciosa estabelecida no acordo climático de Paris - que limita o aumento da temperatura a 1,5 grau Celsius - exigirá que as emissões globais anuais sejam reduzidas em cerca da metade até 2030 e zeradas em meados do século. Sem profundas mudanças estruturais, as emissões devem aumentar novamente quando as economias se recuperarem.

"Se houver uma forte recuperação econômica, os consultores de negócios dos EUA que usam o Zoom não compensarão 150 milhões de novos residentes urbanos na Índia e na África viajando, trabalhando em fábricas e comprando produtos transportados por caminhões", disse Birol.

Birol traçou paralelos com a crise de 2008-09, quando a demanda por petróleo também registrou grande queda anual, antes que o consumo aumentasse novamente. Os pacotes de recuperação econômica não se concentraram na época em energia verde e economias, perdendo a oportunidade de enfrentar o desafio da mudança climática.

©2020 Bloomberg L.P.

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