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"The New York Times" afirma que produção de Boeing é de má qualidade

20/04/2019 20h16

Nova York, 20 abr (EFE).- O jornal "The New York Times" publicou neste sábado um extenso artigo no qual acusa a empresa Boeing de ter descuidado de seus processos de produção em sua fábrica de Charleston, inaugurada em 2009, o que coloca em perigo a segurança dos seus aviões.

"Na última década, sua fábrica, onde produz o modelo 787 Dreamliner, se viu assolada por uma produção de escassa qualidade e uma frágil supervisão que ameaçaram comprometer sua segurança", afirma o texto do jornal nova-iorquino.

A publicação afirma ter revisado centenas de paginas de e-mails internos, documentos corporativos e registros federais, além de ter realizado entrevistas com dúzias de atuais e antigos funcionários para chegar a esta conclusão.

O jornal diz existir uma cultura empresarial na Boeing na qual se valoriza a rapidez da produção acima da sua qualidade, e que a fabricante de aviões pressionava seus funcionários para trabalhar velozmente e ignorava algumas das preocupações apresentadas.

A reportagem do "The New York Times" é publicada pouco mais de um mês depois do acidente envolvendo um Boeing 737 Max 8 na Etiópia, cujas circunstâncias similares à de outra catástrofe na Indonésia poucos meses antes levantaram suspeitas sobre um sistema operativo defeituoso, que finalmente desembocou na suspensão de todos os aviões da classe 737 Max, o que provocou uma grande crise na companhia.

No total, o artigo revela cerca de uma dúzia de queixas apresentadas a organismos reguladores americanos por parte de funcionários da Boeing por questões de segurança nas quais são descritos problemas como manufatura defeituosa, danos nos aviões ou pressões recebidas para não informar sobre violações de regulamentação.

Outros denunciaram a Boeing por, segundo afirmam, terem sido alvo de represálias após indicar falhas no processo de fabricação.

Um dos exemplos detalhados pelo diário é o de Joseph Clayton, um técnico da fábrica de North Charleston da Boeing, uma das duas nas quais se fabrica o Dreamliner, que disse que costumava encontrar resíduos muito próximos da fiação que fica sob a cabine dos pilotos.

"Disse à minha mulher que jamais teria pensado em voar em um deles. É simplesmente uma questão de segurança", disse Clayton ao jornal.

Embora o artigo ressalte que um Dreamliner nunca tenha caído, os trabalhadores já cometeram perigosos erros em sua fabricação, como contam outros funcionários que pediram para permanecer no anonimato por medo das consequências dos seus comentários.

"Peças defeituosas foram instaladas na aeronave, e ferramentas e aparas de metal foram deixadas dentro da aeronave da maneira usual, geralmente perto de sistemas elétricos. Testes de voo foram realizados com detritos nos motores e na cauda", afirma o jornal.

John Barnett, ex-funcionário do departamento de qualidade de Boeing, para quem trabalhou por mais de três décadas até sua aposentadoria em 2017, disse ter encontrado em repetidas ocasiões pequenos acúmulos de aparas metálicas perto dos cabos de controle dos dispositivos, que ele solicitou que fossem removidos.

No entanto, os superiores de Barnett lhe transferiram para outra área da fábrica em resposta às suas queixas.

Além disso, um porta-voz da Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA, Lynn Lunsford, afirmou que sua agência tinha inspecionado vários aviões nos quais supostamente tinham sido eliminados estes resíduos, mas que seguiam estando ali, e lembrou que estes tipos de erros podem levar a curtos-circuitos e posteriores incêndios.

"Como encarregado da qualidade da Boeing, você é o último mecanismo de defesa antes que um defeito chegue até os viajantes dos aviões", disse Barnett ao "The New York Times".

"E ainda não vi nenhum avião em Charleston no qual poria minha assinatura confirmando que é seguro e apto para voar", comentou. EFE