Negócio entre XP e Itaú acende debate sobre 'desbancarização'

Jéssica Alves

São Paulo

A aquisição de 49,9% da maior corretora independente brasileira pelo maior banco do País levantou uma luz vermelha para alguns investidores. Na página do Facebook da XP Investimentos, seguidores ironizaram a decisão de venda minoritária para o Itaú Unibanco - e alguns até se sentiram "traídos". "Faça o que eu digo, mas não faça o que faço", dizia um comentário.

Entre os investidores, fica o ponto de interrogação sobre os conceitos de independência e "desbancarização", além do receio de que as taxas não fiquem mais tão competitivas no longo prazo.

O negócio entre XP e Itaú foi fechado em R$ 6,257 bilhões e prevê que o banco possa deter até 75% da corretora nos próximos anos. O banco, no entanto, não poderá avançar no controle da empresa, garantindo a independência que o sócio fundador da XP, Guilherme Benchimol, exigia - o contrato prevê que 51% dos papéis com direito a voto fiquem com Benchimol e outros sócios pessoas físicas.

André Bona, educador financeiro do Blog de Valor, lembra que existe um risco de mudança em 2033, quando o Itaú pode comprar a totalidade da XP. "Se lá na frente ele achar que deve mudar alguma coisa, vai mudar."

Ele explica, porém, que ainda é cedo para falar em mudanças nos produtos da XP e acredita que a independência da corretora deve continuar, já que o histórico de aquisições do Itaú mostra que o banco costuma cumprir o combinado. Segundo a nota do Itaú, "a partir de 2024, a XP Controle poderá exercer uma opção de venda da totalidade de sua participação no capital social da XP ao Itaú Unibanco. Já a partir de 2033, o banco tem a opção de compra da totalidade da participação. Somente mediante o exercício de qualquer dessas opções ocorrerá a aquisição de controle e da totalidade do capital social da XP pelo Itaú Unibanco".

Independência

As corretoras, assim como os bancos de investimento, vêm se popularizando nos últimos anos, a fim de abocanhar clientes das grandes instituições, que atualmente concentram o dinheiro que o brasileiro investe. Entre os atrativos estão taxas bem mais baixas, com destaque para o chamariz "taxa zero" no Tesouro Direto e até em todos os produtos de renda fixa, além de pouca burocracia e da facilidade das plataformas online e dos aplicativos.

O papel das corretoras é intermediar negócios entre investidores e outras instituições. Corretora independente, afirma André Bona, é aquela que não depende de uma instituição bancária, e que, por isso, muitas vezes oferece taxas mais baratas.

Outra máxima defendida pelas corretoras, que anda de mãos dadas com o conceito de independência, é a "desbancarização", que significa tirar o banco do "meio de campo" dos investimentos. Um dos benefícios oferecidos por uma corretora de valores é a diversificação de produtos que ela possibilita, incluindo papéis de bancos menores - diferentemente dos bancos de varejo, que só oferecem seus próprios produtos.

Em nota, a XP informou que os assessores de investimentos da empresa "não terão acesso aos clientes do Itaú, visto que não existirá nenhum tipo de integração entre as empresas". "Continuamos independentes, oferecendo assessoria personalizada, plataforma aberta e taxa zero", afirma a empresa.

Habib Nascif, presidente da corretora Órama, não vê com maus olhos a negociação com o Itaú e acredita que não é intenção dos bancos "brigar" com o modelo das corretoras - que, na prática, já vem sendo adotado pelos bancos. "Se o banco entrar e não deixar a plataforma ser independente, vai matar o negócio", diz. "Se ele interferir e a corretora virar um banco, os clientes vão procurar novas alternativas. A facilidade de migrar (de instituição) é tão grande, é quase uma portabilidade", observa.

Lenon Borges, diretor de Assuntos Estratégicos e Produtos da Ativa, explica que ainda não enxerga uma saída da XP do mercado de corretoras independentes, como aconteceu com a Ágora, que foi comprada pelo Bradesco e praticamente saiu de cena.

Segundo ele, esse movimento ainda não afeta a estratégia e a oferta de produtos de outras corretoras, mas explica que, se a concorrência diminui, é natural que o cliente perca. "O mercado bancário e financeiro no Brasil já é bem concentrado, e as corretoras surgem para trazer uma oferta mais variada e atrativa. Nos mercados com pouca concorrência, o preço acaba sendo mais caro", diz.

Para Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, a concorrência faz com que todos busquem mais fortemente o cliente final, mas explica que o comportamento do mercado deve ser observado ao longo dos anos. "Não vou mudar minha estratégia. Não estamos mudando um milímetro do que buscamos fazer." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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