Ibovespa encerra perto da estabilidade, em dia de pressão sobre o petróleo

Vindo de ganhos nas cinco sessões anteriores, no que foi sua mais extensa sequência positiva desde outra série de cinco altas entre 20 e 26 de julho, o Ibovespa mostrou correlação com o sinal dos índices de Nova York e especialmente do petróleo neste meio de semana, em que Petrobras (ON -2,36%, PN -2,15%) piorou ao longo da tarde, alinhada à acentuação de perdas na commodity, movimento que colocou o Brent abaixo de US$ 80 por barril nesta quarta-feira.

Até o início da etapa vespertina, o Ibovespa mostrava variação restrita na sessão, com os índices de ações em Nova York oscilando então em torno da estabilidade. Depois, firmaram direção negativa, embora moderada depois do meio da tarde, com o Dow Jones ainda em leve baixa de 0,12% no fechamento, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq conseguiam reverter ao positivo, em alta de 0,10% e de 0,08%, respectivamente.

Aqui, o Ibovespa cedeu apenas 0,08%, aos 119.176,67 pontos, após acumular ganho de quase 6% nas cinco sessões anteriores, em série iniciada em 31 de outubro. Na semana, ainda sobe 0,86% e, no mês, 5,33%. No ano, avança 8,60%. O giro financeiro desta quarta-feira se manteve acima de R$ 20 bilhões, a R$ 23,6 bilhões.

"Os dados econômicos mais recentes da China, especialmente os de comércio exterior, têm resultado nessa correção de preços do petróleo, com expectativa de arrefecimento da demanda, o que leva a commodity a testar a linha de US$ 80 por barril para o Brent - no que talvez já seja um nível de sobrevenda", diz Alan Soares, analista da Toro Investimentos.

Além de Petrobras, o dia foi fraco para Vale (ON +0,07%), que esboçava alta um pouco mais firme com o avanço de 1% para o minério de ferro em Dalian nesta quarta-feira. Por outro lado, a sessão acabou se mostrando bem positiva para as ações de grandes bancos, que operavam mais cedo sem direção única. O alinhamento em alta contribuiu para moderar as perdas do Ibovespa, do meio para o fim da tarde, com destaque para Banco do Brasil (ON +1,27%), que divulga balanço trimestral após o fechamento de hoje, e especialmente para Santander (Unit +2,87%), na máxima da sessão no fechamento.

No melhor momento desta quarta-feira, ainda pela manhã, o Ibovespa ficou bem perto de retomar a linha dos 120 mil pontos, não vista no intradia desde 7 de agosto e, em fechamento, desde o dia 3 daquele mesmo mês. Hoje, na máxima da sessão, o Ibovespa foi aos 119.975,84, com mínima à tarde aos 118.463,87 pontos. Na abertura, o índice da B3 mostrava 119.268,06 pontos.

"Mercado teve hoje uma pausa, ensaiando realização de lucros normal, após várias altas seguidas. Em termos gerais, o Brasil pode ainda ser beneficiado por essa situação geopolítica desafiadora, com duas guerras em andamento na Ucrânia e na Faixa de Gaza. No médio prazo, pode atrair recursos, desde que não tropece, não erre muito no fiscal", diz Daniel Miraglia, economista-chefe do Integral Group, acrescentando haver espaço para mais dois cortes de meio ponto porcentual na Selic, o que pode favorecer também, no médio prazo, a retomada de apelo da renda variável.

Em evento em Nova York nesta quarta-feira, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, destacou que juros elevados nos países desenvolvidos forçam os emergentes a fazer o dever de casa, na medida em que a liquidez no mundo se torna mais restrita. "Precisamos fazer o dever de casa porque a liquidez não está mais disponível como antes", disse Campos Neto, em evento da Valor Capital nesta tarde.

Na B3, na ponta do Ibovespa na sessão, destaque nesta quarta-feira para Ultrapar (+7,27%, na máxima do dia no encerramento), cujos resultados trimestrais resultaram em mitigação para o índice da B3 no ajuste final da sessão, colocando-o bem perto do zero a zero no fechamento. Destaque também para Totvs (+5,65%), após balanço trimestral na noite anterior, à frente na sessão de hoje de TIM (+4,04%) e de Embraer (+3,92%).

No lado oposto, outra empresa que divulgou números trimestrais na noite de ontem, Dexco (-12,19%), seguida por BRF (-9,05%), Raízen (-4,76%) e Arezzo (-4,70%) - empresa que também publicou balanço após o fechamento da terça-feira.

Assim, atento aos números corporativos e voltando a se alinhar à cautela externa, o mercado deixou em segundo plano a boa leitura sobre as vendas do varejo em setembro, divulgada de manhã pelo IBGE. A leitura trouxe expansão de 0,6% para as vendas, na margem, quando a expectativa de consenso para o mês apontava estabilidade.

De acordo com os dados de hoje do IBGE, "o varejo brasileiro opera 4,9% acima do patamar pré-pandemia, visto em fevereiro de 2020, e 1,5% abaixo do maior nível da série histórica, registrado em outubro do mesmo ano", aponta Julio Hegedus Netto, economista da Mirae Asset.

Contudo, das oito atividades pesquisadas pelo IBGE, apenas três ficaram no campo positivo em setembro, observa também o economista da Mirae. Dessa forma, a leitura de setembro indica que "o aperto monetário continua impactando o consumo de bens sensíveis ao crediário, ao contrário dos outros, como alimentos e combustíveis", diz Hegedus Netto.

Em outro ponto de destaque da agenda doméstica nesta quarta-feira, o governo divulgou déficit primário de R$ 97 bilhões para o setor público no ano até setembro, o correspondente a 1,22% do PIB. E o déficit de R$ 18,07 bilhões no mês foi o pior resultado para setembro desde 2020, o ano da pandemia.

No pano de fundo, o mercado acompanha também a tramitação da reforma tributária, cujo parecer do senador Eduardo Braga (MDB-AM) foi aprovado ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com acolhimento de parte das emendas, o que ampliou um pouco mais o rol de exceções - a alteração deve fazer com que a proposta volte para a Câmara, após a conclusão da tramitação no Senado. A proposta deve ser deliberada pelo plenário do Senado em sessão iniciada às 14h desta quarta-feira.

"Lira o presidente da Câmara, Arthur Lira defende o fatiamento da reforma, mas preocupa o aumento no número de setores com tratamento diferenciado. Isso deve jogar a alíquota geral para cima, já calculada por alguns em 27,5%", observa o economista da Mirae.

Em outro desdobramento de última hora, governadores do Sul e Sudeste criticaram o texto da reforma tributária que deve ser votado no plenário do Senado ainda nesta quarta-feira, e cogitam pedir mudanças no projeto ou o voto contrário dos senadores das respectivas bancadas estaduais.

A posição foi transmitida após o grupo do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) se reunir com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reportam de Brasília as jornalistas Fernanda Trisotto e Amanda Pupo, do Broadcast.

A revolta aos "45 do segundo tempo" não teve sinalização prévia ao ministro da Fazenda, em reunião encerrada minutos antes da declaração de chefes locais à imprensa. Após o encontro na sede da Fazenda para pedir reestruturação das regras de pagamento da dívida de Estados à União, os governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB); do Paraná, Ratinho Junior (PSD), e do Rio, Cláudio Castro (PL), afirmaram que avaliam pedir que suas bancadas votem contra a proposta.

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