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Há risco de faltar material de obras para imóveis, diz líder de associação

José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Cbic, diz que setor imobiliário deve crescer até 10% em 2020 - Sérgio Lima/CBIC
José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Cbic, diz que setor imobiliário deve crescer até 10% em 2020 Imagem: Sérgio Lima/CBIC

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

21/11/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Setor imobiliário vai crescer até 10% este ano e salvar setor da construção, diz Cbic
  • Presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção diz que pandemia levou famílias a valorizarem mais o lar
  • Mas falta de matérias-primas pode atrapalhar setor, diz presidente da Cbic

A indústria da construção no Brasil deve fechar o ano com crescimento graças ao desempenho do setor imobiliário, diz o presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), José Carlos Rodrigues Martins. Em entrevista ao UOL, o executivo que representa 92 sindicatos e associações patronais do setor da construção, presentes nas 27 unidades da Federação, diz que a retomada entretanto pode ser ameaçada por um desabastecimento na cadeia de fornecedores.

Enfrentamos um sério problema chamado desabastecimento, com todas as suas consequências. A primeira consequência é o preço. Se tem desabastecimento, o preço pode subir. A segunda consequência é o ritmo da obra, que diminui.
José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção)

Segundo pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) com 1.800 empresas de 27 setores na primeira quinzena de outubro, 68% dos empresários relataram falta de algum material para produção e 82% afirmaram que os preços das matérias-primas subiram em relação ao que havia antes da crise.

Apesar desse obstáculo, o presidente da Cbic diz que o setor da construção deve fechar 2020 com um balanço positivo graças ao segmento imobiliário, formado pelos empreendimentos residenciais e comerciais. Após uma retração de 2% no primeiro semestre, as vendas vêm subindo desde junho, alimentando a geração de emprego no setor, que já soma 140 mil vagas abertas no ano.

"A crise deixou as pessoas mais tempo em casa, e por isso passaram a dar mais valor ao lar. Por isso, resolveram investir em imóvel. Além disso, a taxa de juros está baixa, o que faz do imóvel um ativo real que surge como opção de investimento com potencial de valorização real", disse. Segundo ele, o setor imobiliário deve fechar 2020 com crescimento de 5% a 10% no total de unidades comercializadas.

Já outros segmentos da construção, como o de infraestrutura, seguem em marcha lenta, aguardando a retomada das obras públicas e dos programas de concessões, como no setor de saneamento, disse o executivo.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista ao UOL do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção.

UOL: Como classifica o desempenho do setor da construção em 2020, levando em conta pandemia e retração econômica?

José Carlos Rodrigues Martins: Se analisarmos todos os problemas, o ano foi muito positivo. A gente imaginava um declínio, mas vamos acabar o ano com o desempenho positivo. O setor deve fechar 2020 com crescimento de 5% a 10% em relação a 2019.

E nada melhor para ilustrar isso que números de empregos. Estamos com 104 mil trabalhadores a mais durante o ano. O setor fechou mais de 40 mil vagas no primeiro semestre, mas de junho para cá, contratamos mais de 150 mil, chegando a 2,2 milhões de trabalhadores com carteira assinada.

Se não fosse o setor da construção, o PIB do país teria caído ainda mais. Nós só perdemos da agricultura, que não teve problema nenhum. Pelo contrário, eles até se beneficiaram com o dólar.

É importante lembrar que a cadeia do setor imobiliário é grande. A gente impacta 97 setores, antes, durante e depois da obra. Desde os transportes contratados durante a construção até as vendas de outras áreas que a gente incrementa após a entrega das chaves, como o setor de eletrodomésticos, que passa a vender mais quando há lançamentos de imóveis.

Quais segmentos da construção estão com desempenho mais positivo e por quê?

Indiscutivelmente o mercado imobiliário. Nossa leitura é a de que a crise deixou as pessoas mais tempo em casa, e por isso passaram a dar mais valor ao lar. Por isso, resolveram investir em imóvel. Além disso, a taxa de juros está baixa, o que faz do imóvel um ativo real que surge como opção de investimento com potencial de valorização real.

O setor ainda tem muito a recuperar?

Sim. Já tivemos 3 milhões de trabalhadores com carteira assinada, lá em 2014. Então, tem uma diferença grande ainda a ser recuperada. Para isso, precisamos que outros setores além do imobiliário recuperem o atraso. Estou falando da área de infraestrutura, por exemplo, onde as concessões públicas não andaram e as obras públicas estão muito lentas.

Quais fatores têm sido determinantes para o desempenho da construção no setor imobiliário mesmo em ano de crise?

No lado da demanda, a reação do público consumidor, que não teve medo durante a crise de assumir a compra de uma casa. E, no lado da oferta, a rapidez com que uma parte das empresas que percebeu isso e se reinventou no mercado digital. Se em fevereiro alguém falasse em um feirão virtual de imóveis, quem acreditaria que alguém pudesse assumir uma compra e um compromisso de 30 anos pela internet?

Veja o caso de São Paulo. Desde março, o mercado paulista vendeu 60% do que vendeu em todo o 2º trimestre do ano passado. É menos, mas como estava tudo fechado em 2020, isso quer dizer que todas essas vendas ocorreram pelo meio digital. É um novo canal para o setor.

E o cliente também está maduro para comprar de forma digital, desde a pesquisa até a assinatura digital. Um exemplo de que havia muita burocracia a ser retirada nesse setor.

Olhando os obstáculos, quais foram os maiores desafios do setor em 2020?

Enfrentamos um sério problema chamado desabastecimento, com todas as suas consequências. A primeira consequência é o preço. Se tem desabastecimento, o preço pode subir. A segunda consequência é o ritmo da obra, que diminui, com falta de matérias-primas e produtos.

No primeiro semestre, por exemplo, quando tivemos o pior momento, o setor imobiliário caiu só 2% em vendas, comparando com o primeiro semestre de 2019, para 71,1 mil unidades comercializadas. Mas o volume de lançamentos caiu muito mais, cerca de 44%. Isso aconteceu porque as empresas venderam o que estava pronto, mas tiveram medo de lançar projetos pois não sabiam como seria o pós-crise.

Imaginou-se então que no terceiro trimestre deste ano haveria uma avalanche de lançamentos, para recompor estoques de imóveis e atender à demanda crescente. Até houve aumento de lançamentos, mas menor que o esperado porque apareceu o problema do desabastecimento na cadeia da construção.

Se o construtor tem incerteza sobre a cadeia de fornecedores, ele não sabe quanto vai custar o projeto, já que produtos podem reaparecer mais caros. E a construtora sabe que não dá para repassar aumentos de produtos porque a renda da população não aumentou nem vai aumentar. Então, se cresce o custo e a receita não acompanha, isso afeta a margem da empresa. E se não tem margem, o setor puxa o freio de mão.

Para 2021, qual a expectativa?

A expectativa ainda é positiva. Até porque o setor terá de entregar o que já vendeu neste ano em lançamentos. Além disso, conquistas, como as vendas pelo canal digital, vão continuar a ajudar o setor a vender mais. Por outro lado, precisamos remover alguns gargalos para não sofrer a pressão de custos e de abastecimento na cadeia.

Olhando outros segmentos além do imobiliário, é importante a manutenção do marco do saneamento aprovado no Congresso para estimular a construção na infraestrutura. Claro que manter os juros baixos também é importante. Para isso, as reformas precisam andar. No caso da reforma tributária, ela deve simplificar os impostos sem onerar o trabalho.