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Novos juros elevam dívida pública em R$ 24 bi, metade do total do auxílio

Sede do Banco Central, em Brasília, onde o Comitê de Política Monetária se reúne a cada 45 dias para decidir a taxa básica de juros - ADRIANO MACHADO
Sede do Banco Central, em Brasília, onde o Comitê de Política Monetária se reúne a cada 45 dias para decidir a taxa básica de juros Imagem: ADRIANO MACHADO

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

01/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Banco Central se reúne na semana para decidir nova taxa básica de juros do país
  • Expectativa do mercado é a de que Selic suba de 2,75% para 3,5%
  • Se isso se confirmar, o custo da dívida do governo sobe R$ 23,9 bilhões de um dia para o outro
  • Isso acontece porque os juros que o governo paga quando você investe no Tesouro são regulados pela Selic, por exemplo

O Banco Central reúne o Comitê de Política Monetária (Copom) na terça e quarta-feira (4 e 5) para decidir qual será a taxa básica de juros do país, a Selic. A projeção feita pela maioria dos profissionais de mercado é de que a Selic suba dos atuais 2,75% ao ano para 3,5% ao ano. Se essa expectativa se confirmar, o governo vai assumir um custo de R$ 23,9 bilhões a mais na dívida pública.

Isso vai acontecer porque a maior parte da dívida do governo brasileiro é corrigida pela Selic. E sempre que essa taxa aumenta, o custo do endividamento público federal cresce junto. O impacto dessa alta dos juros na dívida é equivalente, por exemplo, a 56% do gasto com o auxílio emergencial neste ano (R$ 43 bilhões).

Impacto dos juros na dívida pública

Segundo cálculos do próprio Banco Central, para cada aumento de um ponto percentual nos juros, o custo da dívida pública sobe R$ 31,8 bilhões. Assim, se a Selic subir 0,75%, o impacto seria da ordem de R$ 23,9 bilhões.

A dívida bruta pública do Brasil é da ordem de R$ 6,7 trilhões. Disso tudo, um total de R$ 1,4 trilhão vence neste ano. Do total que vence neste ano, 54% são corrigidos pela Selic.

A Selic funciona para o governo assim como os juros dos bancos funcionam para as pessoas e empresas. Quando a Selic sobe, a dívida do governo fica mais cara.
Joelson Sampaio, professor e coordenador do curso de Economia da FGV EESP

Governo vai desembolsar tudo isso?

Se a Selic subir mesmo de 2,75% para 3,5% como projeta o mercado, o governo não vai desembolsar os R$ 23,89 bilhões a mais. O que o governo vai fazer é emitir mais dívida para cobrir a dívida anterior que está vencendo. Mas com uma taxa mais elevada. Como uma pessoa que prorroga um empréstimo no banco, mas assina um novo contrato com uma taxa de juros mais alta.

Assim, quando um investidor resgata um título no Tesouro Direto, no caso o Tesouro Selic, o governo emite outro título para pagar quem está sacando o dinheiro aplicado.

Por que governo eleva juros?

Mas se o aumento de juros, que é uma decisão do governo, aumenta a dívida do mesmo governo, qual a razão para o Banco Central elevar a Selic? Veja os motivos, segundo economistas.

Controlar a inflação: Com juros baixos, as famílias podem consumir mais e também se endividarem mais. Quando o consumo aumenta, as empresas têm espaço para reajustar preços de produtos e serviços.

Embora o Brasil esteja em crise econômica, os agentes econômicos (empresários, investidores, instituições financeiras e consumidores) começam a projetar um aumento da inflação para quando a economia se reaquecer.

Ao elevar juros, o Banco Central já manda com antecedência um aviso de que vai aumentar o custo do dinheiro para conter os preços no futuro.

Segurar o dólar: Quando os juros no Brasil sobem, melhora o ganho de aplicações em renda fixa. E isso atrai investidores estrangeiros. O rendimento subindo de 2,75% para 3,50% ao ano pode parecer pouco para o brasileiro, onde a inflação em 12 meses está acima de 6%, mas para um aplicador americano -que recebe 1,6% ao ano e tem inflação de 2%- essa diferença conta.

Com mais dólares entrando, o preço da moeda americana tende a perder força diante do real. Se o dólar cair, ajuda a segurar a inflação no Brasil porque muitos produtos aqui (como carne, trigo do pãozinho e combustíveis) são influenciados pela cotação da moeda americana.

Governo gasta mais que arrecada e preocupa mercado

Mas, para funcionar, esse remédio de juros altos depende de outro ingrediente: a credibilidade do governo. O mercado precisa acreditar que os juros altos vão mesmo controlar a inflação.

Ao elevar a Selic, o Banco Central espera que as expectativas de inflação caiam. Assim, os juros futuros também começam a recuar, reduzindo os custos da dívida. Mas, para isso, é importante que investidores e mercado acreditem na política fiscal do governo, que está gastando hoje mais do que arrecada.
Fabio Klein, analista de finanças públicas da Tendências Consultoria Integrada

E, para isso, é preciso que o governo faça sua parte, controlando os gastos, dizem economistas. Porque se o setor público continuar gastando mais do que arrecada, a quantidade de dinheiro entrando na economia vai seguir alimentando a inflação.

Quando isso acontece, os investidores ficam cada vez mais desconfiados -ou seja, vão cobrar taxas mais elevadas do governo para rolar essa dívida toda. O que só piora o problema.

No acumulado dos últimos 12 meses, o governo gastou R$ 776,8 bilhões a mais do que arrecadou. Esse rombo, chamado de déficit primário, já representa 10% do PIB (Produto Interno Bruto).

O aumento da dívida se transforma em gastos na hora em que os investidores não quiserem mais financiar a dívida. Enquanto o investidor acreditar que o governo vai conseguir honrar os pagamentos, o governo consegue rolar a dívida, ainda que a um custo maior. Mas se o investidor começar a duvidar, o governo começa a ter dificuldade para rolar a dívida. E o único jeito de sair dessa situação é monetizando a dívida, emitindo dinheiro.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos